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Scarlett

Aprendi com o menestrel alagoano Thalles Gomes que não devemos ter pudor de sacar do coldre nossas falsas erudições para iludir o distinto e inculto público. “Não falha nunca, Sêo Françuel - principalmente se apelarmos para um autor conhecido. É batata. A patuléia se identifica e ainda acha que também é inteligente”, confidenciou-me o sacana com seu antiquado sotaque carioca, pouco antes de ser escorraçado do Rio de Janeiro como charlatão.

 

Pois muito bem. Sigo seu conselho e, desavergonhadamente, não gasto nem mais um parágrafo para atravessar o Atlântico e solicitar o auxílio do menino Fernando Pessoa, na voz rouca de Alberto Caeiro.

 

É claro que vocês sacam aquela ladainha de que o rio da aldeia do gajo era muito mais belo e aprazível que o Tejo, certo?    

 

Pois então. Desde tempos imemoriais, aplico tal tese em relação às mulheres. Prefiro a mulata da esquina, que passa mexendo mais do que Ferry Boat em dia de mar agitado, do que estas musas de plásticos que enfeiam as revistas.    

 

Aliás, sempre achei este negócio de ficar admirando mulher inatingível uma perda de tempo dos seiscentos. Inclusive, nunca consegui entender o comportamento de um amigo gaúcho (por favor, não espalhem que eu tenho um amigo gaúcho) que todo sábado publica fotos e mais fotos de garotas que ele nunca vai comer.  Pra quê, meu deus?, pergunto sempre, mas o Onipotente se esconde em alguma nuvem negra e não responde. Se não fosse minha incurável elegância, eu diria que mais do que perda de tempo, isto é um grave sintoma de xibungagem.   

 

A disgrama é que toda regra tem exceção - e eu também caí no canto da sereia.

 

Scarlett.

 

Antes, porém, de falar da menina Johansson percebo que é hora de meter um pouco mais de erudição (obrigado, Thalles).

 

É óbvio que vocês conhecem o poema Teresa, de Manuel Bandeira, né? Sim, aquele mesmo no qual ele diz que a primeira vez que viu a referida achou que ela possuia “pernas estúpidas”, que na segunda percebeu “que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo” e que na terceira vez não viu mais nada, pois “os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”.  

 

Pois então. Minha relação com Scarlett foi diferente. Não esperei a terceira vez. Peguei afeição pela moça logo de prima, quando a vi abandonada no filme Uma rapsódia americana.  Putaquepariu futebol e regatas! A menina tinha uma quase vulgaridade e imponência das divas de antanho, um num sei o que de indizível – seja lá o que isto signifique.

 

E, desde então, não vejo a hora de deixar meu filho com fome e gastar todo meu parco contracheque com aquela gazela. Amigos, em verdade vos confesso: Investirei todo meu patrimônio apenas para que ela olhe pra mim com aquele mesmo olhar que devotou a Woody Allen. E nem venham falar em leite das crianças. Não aceito chantagem. Já vi homem muito mais sério do que eu perder trator, fazendas e fortunas com mulheres menos abençoadas, que não teriam condições nem de amarrar as chuteiras de Scarlett.

 

Por falar em chuteiras, Sêo Françuel, isto aqui é ou não é um site sobre futebol? Então, que horas o senhor vai tratar  do jogo entre Vitória x Barueri?”, pergunta-me um desalmado torcedor do Bahia, sem esconder o riso de escárnio. Ao que, secamente, respondo. Nunca, nécaras, jamais. E invoco a sábia sentença do santo Bento XVI: “Estes torcedores do Bahia são todos viados. Onde já se viu querer interromper um discurso sobre Scarlett para tratar de um jogo chinfrim de futebol? - se é que aquele triste espetáculo que aconteceu ontem em São Paulo pode ser chamado de jogo de futebol”.

 

Palavras da Salvação.

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Valei-me São George Romero Cap. 2

Injuriado, retorno a esta tribuna sacando do coldre um spoiler, aquele artificio muito usado por xibungos e cinéfilos (desculpe-me a redundância) para antecipar o desfecho da trama. Portanto, aviso logo à praça: Se seu negócio é ludopédio, favor voltar outro dia. O longo texto que segue abaixo não tratará de futebol.

O seguinte é este. Ou melhor, foi este.

O ponteiro do relógio marcava exatamente 17h49 quando a porra do telefone do trabalho toca insistentemente. Absorto, ignoro. Porém, a estagiária, burra, gostosa e gentil, me chama.

  • Ligação para o senhor

  • Diga que não estou, minha filha.

E não estava mesmo. Minha cabeça, tronco e membros continuavam voltados para a peleja entre Vitória x Avaí, que começaria às 21h no tenebroso e friorento Estádio Ressacada.

Poucos instantes, a disgramada retorna.

  • Eu falei que o senhor mandou avisar que não estava (viva a inteligência!), mas a moça informou que era coisa urgente.

Diante disso, aquiesço. E ouço do outro lado da linha a voz aflita de DONA SÔNIA, a moça que trabalha lá em casa.

  • Sêo Françuel, o menino tá com 39,7 de febre. Tem que levar para o hospital agora.

Havia tanto terror na sua frase, que parecia que era a referida que estava prestes a bater as botas. Por isso, ato contínuo, abandono a labuta na gloriosa, egrégia e augusta Assembleia Legislativa e desço a ribanceira já pensando em uma fórmula para adiantar o serviço. Mesmo sabendo que podia dar AZAR, avento até a hipótese de pegar carona com a MINHA VIZINHA.

Antes 19h, chego na emergência lotada do Hospital da Bahia e escuto uma estranha sinfonia de tosses e espirros.

Putaquepariu o porco espinho!

E o ponteiro do relógio dispara. 19h30, 20h, 20h30 - e nada. Exatamente às 20h48 o médico, numa leseira do cão, começa a atender meu rebento. Porém, em vez de cuidar logo da gripe, ele começa a querer saber a história toda do guri. Depois de muita prosopopéia inútil, receita nebulização e hemograma.

Pego o sacaninha pelo braço e arrasto-o pelo corredor daquele asséptico nosocômio. São exatamente 21h02 e nenhuma bandeira do Vitória naquele recinto. É muito descaso. Por isso que a saúde do Brasil tá do jeito que tá.

Mas, derivo.

Em seguida, uma enfermeira de peitos pequenos (não se fazem mais enfermeiras como antigamente) pede para eu ficar tranquilo. “Tenha calma. Vai ficar tudo bem. Não é nada grave”. Como assim não é nada grave? Já são 21h10 e não tenho nenhuma notícia sobre o jogo lá em Santa Catarina.

Pois muito bem.

Dizem que quando o satanás não aparece manda seu secretário. Olho para o lado e vejo um perneta filho da puta (por que todos os pernetas são filhos da puta?) com um fone no ouvido, bem feliz. Faço um sinal e peço, humildemente, para ele sintonizar numa rádia que esteja transmitindo a partida. “Já estou ouvindo o jogo. Tá 1 x 0 para o Avaí”, diz o sacripanta, sem disfarçar a alegria.

Então, decido acompanhar a peleja pelo semblante do desinfeliz. Poucos minutos depois e ele faz uma cara de quem está atrasado para ir no sanitário.

  • O que foi? , pergunto aflito.

  • O Vitória meteu uma bola na trave.

Mais um tempinho e ele abre um sorriso escroto. Avaí 2 x 0. Desisto de ficar olhando para a cara do perneta filho da puta, mas não abdico de tentar ver o resto do jogo. Procuro novamente a enfermeira de peitos pequenos. Ela me diz que o resultado do hemograma não vai demorar. “Em menos de duas horas está pronto”.

Duas horas? Caralho!

Então, apelo. “Meu filho, vou aqui fora tomar um ar. E volto já” Como ele já me conhece há 18 anos, largou. “Vai procurar um bar pra ver o Vitória, né, pai?”. Não tenho como negar. “Mas, é rápido, filho. Em meia hora estou de volta. Só vou ver a segunda etapa”. E ele. “Mudaram a regra do jogo, foi? Cada tempo agora tem apenas 30 minutos?”.

O sacana com gripe e febre e ainda fica fazendo piada…

Pergunto ao porteiro do Hospital onde posso ver o jogo ali perto.

  • Vá no Botequim. É só dobrar a segunda a esquerda e, depois do quebra-mola, pegar a direita.

Chego na disgrama do recinto e vejo apenas rostos lânguidos. O telão tá passando um show de Djavan. Bem feito. Quem manda ir num lugar que se chama botequim, com ó.

Brasileiro, não desisto nunca. E mais rápido do que um Ben Johnson dopado, corro para a Rua do Canal. Antes de chegar na esquina, ouço o barulho de fogo e penso. “Agora, vai. Gol do Vitória”. Olho para o lado e lá está um corpo estendido no chão. Um cidadão tentou reagir a um assalto e foi alvejado na mão e na clavícula.

Fujo dos ladrões e finalmente chego numa budega para ver o time. Antes que pudesse passar as primeiras orientações, Victor Ramos toma um nó de menino de playground e ainda faz penalti bisonho. 3 x 0. Pra acabar de fuder a porra toda, o juiz, em vez de acabar logo o jogo, deixa a partida ir até os 45 minutos. O Avaí mete mais um.

Volto para o Hospital depois da meia-noite e ainda não tem o resultado do hemograma. Toda a equipe médica está mobilizada atendendo o rapaz (ele também era rubro-negro) que levou os tiros.

Olho para a folhinha que marca 31 de julho. Poizé. Agosto ainda nem começou.

Valei-me São George Romero!

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Confesso que sequei (pouco) o Bahia*

Saio desta minha vida de obsequioso silêncio para entrar nesta história (chupa, Getúlio!) com a seguinte e primeva confissão: por um grave defeito de caráter, sequei o Bahia poucas vezes. Na verdade, na verdade (alocução muito usada por Jesus Cristo e por advogados quando vão começar a mentir) minha falha ética não é tão severa assim. Apenas disse isso para tentar oferecer uma dramaticidade canalhamente nelsonrodrigueana nesta nova série do INOLVIDÁVEL IMPEDIMENTO.

Mas a verdade, aquela que salva e liberta, é que sequei pouco por outro motivo: soberba. Afinal, o Bahia pode até possuir 43 títulos estaduais, dois campeonatos brasileiros e outros trocados, mas nunca, jamais, conseguirá conquistar a glória suprema do brioso Esporte Clube Vitória: ser campeão de terra e mar na primeira visita do Papa ao Brasil, em 1980. É por isso que eles morrem de inveja. Mas eu, cristão ortodoxo, os perdôo.

Ademais (recebam, secadores, um ademais na caixa torácica e distribuam de prima), tem outro porém. Desde o início da invasão da Normandia, o ex-quadrão tricolor não disputa absolutamente nada. E secar o nada é metafísica demais para meu cartesiano espírito. E já que começamos a falar nas coisas do espírito, encerro estes prolegômenos informando que todos os dias repito a seguinte oração atribuída a Santo Agostinho: “Senhor, livrai-me das tentações (de secar meu rival), mas não hoje”.

Bahia 2 x 1 Internacional (15/02/1989)

A Bahia tem um grave defeito de caráter. E digo isto agora não como metáfora, mas sim enquanto fato. E, conforme ensina o bom jornalismo, com ou sem diploma, “fato é fato e meninico é meninico”.

Pois muito bem.

Uma das mais irritantes características desta besta e (ainda) bela província é a invocação constante do espírito da alegria, do idiota orgulho de ser baiano. E naquele ano da graça de 1989, este otimismo atingia níveis doentios.

Nos becos, ladeiras, butecos, vielas e outros ambientes mais inóspitos, como emissoras de rádio, só se ouvia aquela ladainha: “O Bahia é a Bahia neste Brasileirão”.

Ao que eu respondia, educadamente, com aquela famosa prosopopéia árabe: “MI ZIBB”. (Aos portadores de deficiência no poliglotismo, informo: MI ZIBB significa MINHA CACETA em árabe”.)

Mas, derivo.

O fato é que naquela quarta-feira de fevereiro, peguei o novíssimo walkman de minha irmã e segui para o glorioso setor de compensação de uma agência bancária (nada de propaganda aqui) onde laborava todas as noites. E comecei a massacrar os cheques com a mesma fúria que o Bahia partia pra cima do Inter. Meu chefe, que, apesar de tricolor, tinha bom coração, ficou com receio que eu contraísse uma LER e me mandou para casa. Em definitivo.

O saldo da noite foram duas tragédias. O Bahia começava a ganhar o título nacional e o Brasil perdia um talentoso bancário.

P.S Ainda tentei secar no jogo de volta no Beira-Rio, mas fiz com a parca força de um recém-desempregado. É óbvio que não deu certo. Restou-me praguejar para que a festa da conquista fosse uma porcaria. Exagerei na reza e morreram dois torcedores deles. Até hoje sinto um remorso quase assassino.

Bahia 0 x 0 Internacional (26/04/1989)

No dia 25 de abril, data dedicada à briosa Revolução dos Cravos, este histórico locutor completava mais um ano de vida ainda desempregado.

Minha querida e finada genitora, vendo seu pimpolho um tanto quanto macambúzio, tentou consolar: “Meu filho, o que você quer de presente de aniversário?”.

Agradeci a oferta, mas lhe disse que o que eu queria não estava ao alcance dela.

Generosa, como todas as mães, ela ainda tentou: “Diz, que eu faço um esforço”.

Lacônico, falei: “Esquece, mãe”.

E ela esqueceu. Mas eu não. Sabia que no day after meu destino seria decidido. Se o Bahia ganhasse do Inter e avançasse para as semifinais da Copa Libertadores, com certeza eu não estaria aqui para contar a história e vocês provavelmente se lembrariam do caso de um cabeludo que se jogou do Elevador Lacerda nos finais da década de 80.

E a tragédia era iminente. A disgrama do Tricolor, tenho que reconhecer, estava jogando algo parecido com futebol. Já havia vencido o Inter duas vezes na fase inicial e, não à toa, estava invicto na competição até poucos dias, quando perdera para o Colorado por 1 x 0.

Foi então que, quase ateu, descobri que Deus existe. Ou Deus ou São Pedro que, com o auxílio luxuoso de um juiz descarado (desculpem-me a redundância), deixou o jogo correr, correr é modo de falar, sob um temporal dos seiscentos. Foi o 0 X 0 mais lindo da história do Ludopédio de Pindorama.

 

Bahia 2 x 3 Brasiliense (11/12/2004)

Apertem os cintos que vamos viajar diretamente da Copa Libertadores para a Segundona sem escalas.

E faremos isso porque no ano de 2003, o último deles na 1ª divisão, era inútil gastar a garganta para secar. Para que vocês tenham uma idéia, as injúrias se despediram da Primeirona presenteando a torcida Rubro-Negra com um derrota de 7 x 0 para o Cruzeiro em plena Fonte Nova. Uma beleza.

Mas, 2004 parecia que ia ser o ano da besta fera, do demônho. Não bastasse o Leão estar carimbando seu passaporte para o purgatório do futebol brasileiro, o Bahia havia montado uma equipe razoavelmente competitiva. Estava invicta na Fonte Nova e precisava apenas de um triunfo contra a impoluta equipe do não menos impoluto senador para voltar ao lugar que não lhe é devido.

Além disso, o Brasiliense já estava garantido na 1ª Divisão e ia a campo desfalcado de Iranildo, sim, ele mesmo, e mais duas ou três carniças que não lembro o nome agora (e nem vou lembrar hora nenhuma).

Diante de tão grave quadro, tomei uma atitude drástica: desliguei o rádio antes mesmo de começar o jogo. Além disso, tirei o telefone do gancho, me tranquei no quarto e, durante os noventa minutos, fiquei incomunicável. Decidi que secaria apenas por telepatia. A partir deste dia, minha fé no sobrenatural se renovou e vi que sou quase um Uri Geller.

Bahia 1 x 0 Fast Club (07/10/2007)

Em se tratando de secação, guio-me pelo hino do Grêmio. “Contra o Bahia aonde o Bahia estiver”.

Assim, sem o menor pudor, entrei na Caravana Rolidei rumo ao Brasil profundo da Terceirona. Véspera da morte de Che Guevara – e eu preocupado com uma nova traição dos povos da floresta amazônica. E, amigos, em verdade vos confesso: não há coisa pior do que depender deste tipo de gente.

Para que eu atingisse o nirvana, bastava apenas o Rio Branco vencer o já classificado ABC dentro de casa ou então o Fast não perder para o Bahia na Fonte Nova. Com isso, eles ficariam mais um ano na 3ª divisão.

Mas, o tempo passava e minha angústia aumentava. E senti que a casa poderia feder a homem quando, maizomenos aos 25 do primeiro tempo, um sacana amazonense (desculpe a redundância) driblou o arqueiro do Bahia e com o gol livre chutou… para fora. Não bastasse isso, o apito amigo entrou em ação e expulsou dois jogadores da equipe da floresta, tentando de todas as formas propiciar a vitória do Itinga. E, bastou o jogo entre Rio Branco x ABC terminar em 0 x 0, que ele decidiu dar mais seis minutos de acréscimo. E a tragédia se abateu na Velha Fonte Nova. Aos 49 do segundo tempo, o Bahia finalmente conseguiu balançar as redes. Ato continuo, o canalhocrata acabou o baba e minhas esperanças.

Porém, outra confissão: minha raiva maior nem foi contra ele. Afinal, o juizão cumpriu sua função social: roubar descaradamente. Meu ódio ancestral dirigiu-se pras disgramas das equipes do Acre e do Amazonas. E, desde então, por tabela, também não quero mais conta com Rondônia & Roraima e vice-versa, já que nunca consigo distinguir quem é quem entre estas duas porras.

Marília 3 x 1 Bahia (12/08/2008)

A princípio, alguns podem até não entender porque decidi colocar minha potente energia secadora num mero jogo de terça-feira à noite, ainda mais porque estávamos (estávamos, vírgula, quem estava era o Bahia) na primeira metade do campeonato da Segunda Divisão.

Mas, eu explico. O lado negro da força, ou melhor, o lado tricolor começava a mostrar seu poder. Eles já estavam invictos há quase dez rodadas e, neste ínterim, haviam vencido ninguém menos do que o poderoso Corinthians em pleno Pacaembu.

Portanto, o Brasil exigia que cada um cumprisse seu dever. E meu dever era secar o Bahia e comer uma moqueca de miraguaia no Alto do São Francisco, no pacato bairro da Boca do Rio, conhecido carinhosamente como Boca do Réu.

Um detalhe. A multidão que se aglomerava em frente à TV era adepta do time de Itinga. Portanto, o amor ao meu combalido espinhaço recomendava que secasse em silêncio. E assim o fiz. No máximo, dava uns palavrões que se perdiam diante da algazarra geral e irrestrita.

Porém, aos 28 do segundo tempo, quando Marcinho balançou as redes, não me contive: “Que golaço!”.

O dono da budega olhou pra mim com olhos de lagoa seca – e perguntou: “Que, que, que pô, pô, pôrra é é é essa? Vou, vou, voucê num é tô, tô, tô ce dor do Bahia, não, pô, pô, pôrra?”.

(Ah, sim, ia esquecendo de dizer. O desinfeliz era gago. Não à toa o nome do recinto é Bar do Gaguinho).

E prosseguiu: “Só não vou lhe meter a disgrama agora porque você é amigo de meu amigo Ernandes”.

Antes que a fúria da turba ignara recaísse sobre este impertinente locutor, tomei o mesmo caminho da gagueira do referido: sumi – não sem antes repetir aquela frase que o menino Machado de Assis usava no final das suas crônicas: Boas noites.

E nunca mais pude comer a deliciosa moqueca de miraguaia.

* Texto originalmente publicado no glorioso Impedimento.

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Sangue, suor e lagrimalegria = futebol

Na minha extensa nominata de defeitos não se inclui a incompreensão. Desde sempre, por formação democrática, aprendi a respeitar (e conviver com) os contrários.

Para que vocês tenham idéia de meu tolerante espírito, tenho amigos que gostam até de Djavan e/ou de teatro. E não os recrimino. É como diz o poeta Tiririca: “gosta de Djavan, mas é meu amigo; gosta de teatro, mas é meu amigo”.

Aliás, por falar nas artes cênicas, o menino Nelson já ensinou que só os idiotas da objetividade não compreendem que em qualquer baba de ponta de rua há mais complexidade do que nas tragédias shakespeareanas. Touché.

Pois muito bem.

Apesar de toda esta minha vocação para compreender a alteridade (chupa, Levinas!), há algo que não aceito, não tolero, nem perdôo: a falta de paixão pelo futebol. Pra mim, isto é inadmissível, demonstra um mau caratismo sem tamanho. Pior: uma falta de caráter.

Porém, carpinteiro do universo, sempre procuro consertar o que tem não pode ser. Acho que há cura até mesmo para estas almas insossamente atormentadas. Assim, faço uma última tentativa de convertê-las para o caminho da salvação, reproduzindo o texto abaixo do escritor espanhol Enrique Vila-Matas, publicado no livro: A Cabeça do Futebol.

 

Ouçam, hereges, ajoelhados no genuflexório.

 

“Na década de 90, fiz certa amizade com jogadores de futebol que liam. Especialmente com Pardeza e Pep Guardiola. Eles queriam que eu lhes falasse de literatura, e em troca, eu queria que eles me contassem segredos de futebol. Martirizei os dois durante várias noites, perguntando-lhes se existiam jogadores de futebol bem-sucedidos que no mesmo campo tivessem se conscientizado, um dia, de que acabavam de fazer a melhor e última grande jogada de sua vida. Tratava-se, obviamente, de uma pergunta que, em termos literários, poucos escritores aceitariam responder. Eu, ao menos, não conheci ninguém que estivesse disposto a reconhecer que seu melhor livro já tinha sido escrito. Pardeza e Guardiola saiam pela tangente e sempre acabavam evitando a resposta para minha pergunta noturna e obsessiva.

Achei a resposta casualmente, anos depois, na trágica história Abdón Porte, meio-campista do Nacional de Montevidéu. Rosto fino, cabeleira escorrida, muito alto, tenacidade combativa. Corria o mês de março do ano de 1918 e no Uruguai era jogado naquele tempo o melhor futebol do mundo. Abdón Porte tinha 27 anos e era o ídolo dos torcedores do Nacional, embora estes não soubessem que Abdón sabia perfeitamente sabia perfeitamente que já tinha feito a última grande jogada de sua vida. Tinha entrado em um ligeiro declive do qual tinha consciência, e se via substituto de outro meio-campista na seguinte temporada. Toda a torcida tricolor (branco, azul e vermelho são as cores do Nacional) amava Abdón Porte, e naquele dia de março a equipe derrotou por 3 x 1, em seu estádio do Parque Central o Charley. Depois da partida, Abdón foi festejar a vitória com seus companheiros. A uma da madrugada, despediu-se de todos e disse que tomaria o trem na estação central. Porém, algo aconteceu quando ficou sozinho e ele mudou de idéia, retornou ao estádio. No meio da noite, foi até o círculo central do campo, onde tinha o costume de reinar. Ninguém mais o substituiria. Ali, no próprio centro do estádio, matou-se com um tiro no coração.

Na manhã seguinte, o goleiro da equipe, que foi o primeiro a entrar no estádio, encontrou o corpo do meio-campista. Junto ao revólver, um chapéu de palha, com duas cartas. Em uma delas, despedia-se das pessoas amadas. E na outra, - para que digam que literatura e futebol estão brigados – uns versos copiados a mão:

 

‘Nacional embora em pós convertido/

e em pó sempre amante/

não esquecerei um instante/

o quanto me é querido/

Adeus para sempre’

 

Coração tão tricolor. Ainda hoje, em todas as partidas jogadas no Parque Central, pode-se ver na tribuna uma bandeira com a legenda: Pelo sangue de Abdón. ‘Insípida de alegoria – alguém escreveu. Ali onde estava, sendo dono do meio-de-campo, queria que o tempo se fizesse eterno’. Insípida ou não, duas semanas depois daquele suicídio, Horácio Quiroga, contista magistral e uma das vidas mais trágicas da literatura, baseou-se na história de Abdón para escrever Juan Polti, Half-back, um relato que publicou na Revista Atlántida em maio de 1918. ‘Quando um rapaz chega, por A ou B, e sem prévio treinamento, a gostar deste forte álcool de varões que é a glória, perde a cabeça irremediavelmente’. Desse álcool de varões e do mítico suicídio falaria também, anos mais tarde, o relato Muerte en la cancha, de Eduardo Galeano.

Em 13 de julho de 1930, sem relação alguma entre o suicídio do meio-campista e a competição universal que começava, ocorreu no estádio do Parque Central a primeira partida de toda a história dos mundiais de futebol. Enfrentaram-se Estados Unidos e Bélgica. Assim, se pode dizer que a primeira bola do primeiro mundial começou a rolar a partir do lugar exato onde Andón caíra morto, daquele círculo central no qual o meio-campista decidiu jogar sua última partida, eterniza-se no centro do mundo, do seu mundo”.

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Rio, Taxis e Aguinaga: condenados à decadência

Há exatamente uma semana e 12 minutos, na esquina da Hilário de Gouveia com a  Barata Ribeiro, o Pavão Azul cumpria sua função social de Buteco*:  servia um rango de responsabilidade a preço de verdade, igual ao armarinho Paes Andrade.

Em troca, cobrava-nos, além dos parcos caraminguás, um tanto assim de paciência para aguentar os tradicionais desconfortos: mesa suja, cadeira cambaleante  e demora no  atendimento. Porém, a cerveja gelada e a conversa (boa e) fiada ajudavam a pagar o ingresso e suportar estas pequenas intempéries. 

Para completar o folclórico quadro, bastava somente mandar o garçom perguntar ao freguês ao lado o resultado do futebol. Não o fiz porque não qui-lo (dá-lhe Jânio) e também  porque aquelas porções de injúrias humanas que infestam estes ambientes  insalubres, além de serem metidas a gás com água, sabem nada sobre o ludopédio. Ademais, outra impossibilidade: a peleja que interessava, Vitória x flamengo, só se realizaria no day after (sim, para falar do Rio de Janeiro, é preciso um bocado de frescura e estrangeirismo).

Mas, derivo.

O fato é que já perto do sol se por (mentira, o tempo tava nublado), eis que abandono meus companheiros de infortúnio para fixar minha atenção numa figura que anda pela calçada com um chinfra que não condiz com seu porte físico.  Roupa folgada e chinela havaiana, a referida criatura desfilava como se estivesse num programa de Flávio Cavalcanti. Na verdade, ele já estivera lá há quase 40 anos e…
 
“Sêo Francis, quem é esta entidade?”, interrompe-me  a menina Larissa Dantas, com a curiosidade típica de seus 26 anos. 

Ainda absorto em minhas vastas reflexões e pensamentos imperfeitos, respondo: “Ele é o Rio de Janeiro, Lari”. 

É óbvio que, assim como vocês, ela também não entendeu. Mas, como tenho paciência com as moças de 20 e poucos, expliquei.

Seguinte é este.

No ano da graça de 1970, Pedrinho Aguinaga (eis o nome da peça) foi eleito o homem mais bonito do Brasil. Com o título na mão, nenhuma idéia na cabeça e uma estampa razoável, ele flanava pela então cidade maravilhosa pisando nos astros distraído. Hoje, é apenas este farrapo que você está vendo.

Nesta mesma época, continuei a comparação, o Rio de Janeiro, mesmo tendo perdido o status de capital federal para aquela inóspita e insossa urbe do Planalto Central, ainda tirava onda de centro cultural de Pindorama e etc e coisa e tals.

Pois muito bem. A verdade que salva e liberta é uma só. O tempo, que nunca suspende o seu vôo, transformou o Rio de Janeiro num Pedrinho Aguinaga e vice-versa. Sobrou apenas pose. E muitos taxis, taxis e taxis.

Putaquepariu a mulher do padre! É inadmissível uma cidade com tantos taxis.

E aos que pensam que minha abalizada análise foi muito rasa, que não captei a essência da cidade nos poucos dias de convivência, saco do coldre os ensinamentos do menino Oscar Wilde: “Só os espíritos levianos não julgam pelas aparências”.

E, aparentemente, vos digo: Uma cidade com aquela quantidade de taxis está irremediavelmente condenada à decadência.

* quem grafa buteco e OUTRAS PARADISIÁSCAS REGIÕES com  ó merece uma surra de cansanção e urtiga. 

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Paradoxos Cariocas

Logo depois que o canalhocrata pernambucano Nielson Nogueira Dias assoprou seu inescrupuloso apito pela última vez na peleja entre Vitória X Flamengo, na fria noite de sábado no Engenhão, a seguinte e paradoxal pergunta pairou sob o céu nublado da capital fluminense: Como é que diversos jogadores produzem bem abaixo da média (e do que são capazes) e ainda assim a equipe consegue fazer uma boa partida?

Repetindo: Como é que diversos jogadores produzem bem abaixo da média (e do que são capazes) e ainda assim a equipe consegue fazer uma boa partida? Foi exatamente este questionamento que fiz ao ver o Leão derrotado por 2 x 1 pelo rubro-negro carioca.

Depois de me raciocinar todo, coloquei a culpa na geografia. Sim, na geografia, pois, mais do que qualquer outro local de Pindorama, o Rio de Janeiro tem um inexplicável fascínio pelos paradoxos. Aqui tudo é três ou novecentos. A beleza e a perversidade coexistem de forma obscena  e inadmissível. A cidade é extravagantemente bela e terrivelmente perversa com a maior parte de sua população. As mulheres são lindas e insuportavelmente chatas. A riqueza zomba da pobreza e vice-versa, pois os miseráveis não perdoam os que esnobam até o supérfluo. Além de tudo isso, sabedoria e burrice também atingem patamares altíssimos. Tudo aqui causa atração e repulsa – até o sotaque.

E o futebol, enquanto representação da vida, não consegue fugir a estas determinações. Os times considerados grandes não têm sequer uma mísera casa, um campo de treinamento aceitável. No entanto, esbanjam os trinta dinheiros nas concentrações dos hotéis de luxo.

É óbvio que estas síndromes dos paradoxos e das contradições contaminam até os mais ilustres visitantes, como no caso do Brioso Vitória. No jogo de sábado, por exemplo, alguns dos principais jogadores do time estiveram numa jornada infeliz. De nossa zaga, que é uma das melhores do Brasil, só se salvou o menino Victor Ramos. Viáfara, um dos goleiros com maior domínio de bola do continente americano, não conseguiu sair jogando uma só vez – e ainda entregou a rapadura num chute bizarro que deu origem ao segundo gol. No meio-campo, VANDERSON retroagiu, teve um revertério e lembrou os seus piores momentos no Vitória, quando se destacava apenas pela violência e falta de habilidade. Apodi, que já é uma contradição ambulante (um instante faz uma jogada genial e em outro um lance estúpido), não conseguiu reeditar seus momentos de brilho. E a promessa Elkesson não mereceu nem mesmo o nome de promessa.

Inobstante todos estes problemas,  o Vitória jogou bem e merecia um resultado melhor, por mais paradoxal que possa parecer.

E como este negócio de contradição e paradoxo é mais contagioso do que a gripe do porco, nem mesmo este cartesiano locutor ficou imune. Por isso, vos digo: a derrota não foi um  péssimo resultado. Ao contrário. Até fará bem a este jovem time do Vitória. E, antes que me acusem de maluco, mais do que já mereço, explico.

Seguinte é este.

Este revés servirá para dar um freio na garotada. Eles precisam tirar o salto e voltar a jogar com garra e determinação em todos os jogos. Não podem se deixar picar pelo mosquito da arrogância. Têm que saber quais são suas virtudes e limitações. E, amigos, em verdade vos informo: um triunfo ontem, que nos levaria à liderança provisória, poderia mexer ainda mais com a cabeça da gurizada.

E foi exatamente por isso que, quando saí do Engenhão, não estava abatido pelo fracasso. O inverso é verdadeiro. Primeiro, porque o time não se acovardou um só instante. E, principalmente, porque reforcei a convicção de que, mesmo quando muita coisa dá errado, há algo certo com este time: há comando.

E ademais (recebam, hereges, um ademais pelos mamilos no fim da transmissão) sempre sigo as orientações e ensinamentos do povo do Norte e Nordeste de Amaralina, que ontem à noite saiu em passeata pelos morros aqui do Rio de janeiro com as seguintes palavras de ordem que salvam e libertam:

ESTE CAMPEONATO É IGUAL A MINGAU QUENTE
POR ISSO VAMOS COMÊ-LO PELAS BEIRADAS

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Ninguém Segura o Almeidinha

O ponteiro do relógio marcava exatamente 31 minutos e 28 segundos da etapa complementar quando senti a casa feder a homem. Que disgrama mau cheirosa foi aquela? O jogo numa murrinha da zorra e o fidumasanta do Simon decide empestear ainda mais o sagrado ambiente, inventando a porra de um penalti.

Putaquepariu a mulher do padre e do Santo André!

Para acabar de completar a chibança, o presepeiro do Marcelinho Carioca começa a pentear a criança naquele ritual macabro que normalmente termina com a bola balançando as redes.  Além de tudo isso, enfrentávamos uma equipe que ainda não havia sido derrotada fora de casa. Botem mais umas duas pitadas de superstição e percebam o tamanho do vendaval assombroso e fedorento que rondava o Santuário naquele instante.

Aliás, não só naquele momento. A bem da verdade, o fudum fantasmagórico teve início bem antes, ainda no primeiro tempo. Nem bem a bola começou a rolar, rolar, vírgula, pular (como está ordinário meu gramado, meu Deus!) e umas injúrias humanas já ensaiavam críticas à equipe, numa clara tentativa de enojar meu baba…

Mas, deixemos estas carniças no lugar que eles merecem – o esquecimento – e retomemos ao momento fatal, aquele em que  o ponteiro do relógio marcava aqueles 31 minutos e 28 segundos da etapa complementar e a casa começava a feder a homem. Pois muito bem. para combater tão forte adversário e tanto mau cheiro só com reza muito forte.

E foi exatamente neste instante que levei as mãos aos céus e apelei ao menino Almeidinha -  o velho e bom Sobrenatural de Almeida que tem acompanhado o Rubro-Negro nesta caminhada rumo ao título. Ao ouvir minhas angustiadas orações, ele não decepcionou e largou a seguinte.

Sêo França (sim, ele já me chama de Sêo França porque estreitamos a amizade nesta competição), fique tranquilo. Já fiz até o grande Robgol perder penalti contra nosso Vitória quanto mais um sacana deste tamanh…”.

Nem bem ele terminou a frase e o xibungo do Marcelinho chutou a bola em direção ao gol. A menina tinha endereço certo. Porém, na hora em que ia entrar, o pé de Almeidinha desviou a trajetória, fazendo-a bater de frente com a trave. 

Ô, grória!

Logo em seguida, depois da graça alcançada, decidi dar um descanso ao bom Almeidinha e dirigi minhas preces a outros santos, mais especificamente os SANTOS DE CASA que não se cansam de fazer milagres neste campeonato. E eles não me decepcionaram. Menos de cinco minutos depois, Leandro Domingues cruza e Uelliton manda para o filó.  

Ô, grória das grórias.

No final do jogo, Roger, brocando mais duas vezes, colaborou para espantar do Santuário os maus odores e os malditos que vão ao Parque Sócio-Ambiental apenas para atrapalhar minhas preces e orientações.

O que estes sacanas não conseguirão nunca é silenciar a população do Norte e Nordeste de Amaralina que varou a madrugada entoando o inolvidável refrão que emociona até os mais céticos.

UMBORA ALMEIDINHA, CARAJO!


P.S No próximo sábado, este religoso locutor estará na capital carioca orientando o Rubro-Negro rumo ao primeiro título nacional de uma equipe do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

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O maior passo da humanidade*

Nunca houve um passo como moonwalk, nunca houve mais linda invasão à lua dos doidos varridos.

Por Xico Sá

Nascimento do Passo, gênio das 70 e tantas mungangas do frevo, que me desculpe; os velhos e bons b-boys, idem ibidem; os mestres dos baques solto e virado que me perdoem; Elvis, pomba-gira da pele branca, negocie; Fred Astaire, nego, não se revire no desenho pontilhado dos seus respeitáveis sete palmos; funkadelics forever, Chicago e Belém com as suas aparelhagens, samba, samba, samba, candomblé, os deuses que dançam, a todos o meu respeito e o sangue sem mertiolate dos meus joelhos…
Mas, na boa, o maior passo da humanidade se deu quando o primeiro negro pisou na lua: salve Michael Jackson, um, dois, espírito a três passos do chão, me encoxe, wanna take you on a moonwalk…
Ele vai pagar a vida inteira por ter sido maior que Armstrong e sua gangue, por ter fincado a bandeira da sua tara acima de todos os musicais de todas as tendências… Wanna take you on a magic carpet ride…
Salve os bois bumbás, os tchans, o samba duro, as lias de itamaracás, a ciência sob o calçamento do Mangue, a fulerage, a macumba da japonega, mas, peraí, ninguém levitou tão bonito quanto esse rapaz!
Forever my love, you’ll be mine. A lua, esse conhaque, o passo da humanidade, comovido com alma perra e carapuça de jabá-pop à vera.
Eu sei, ele perdeu o nariz original como o carinha do barbeiro de Gogol, mas pouco importa, não o diminui como o primeiro negro a pisar a areia movediça da lua.
A América nunca vai perdoar o seu primeiro negro mais leve que as folhas das folhas da relva, coitada d’América…
Ninguém, nem o mais mungangueiro dos artistas populares, nem os comedores de vidros, ninguém sob a lona do nosso Soleil, ninguém no farol, ninguém no sinal…

Nunca houve um passo tão lindo, ajoelhe e reze sr. Balé clássico, bata palmas, morra
de inveja, gaste a arrogância das sapatilhas…
Nunca houve um passo como moonwalk, nunca houve mais linda invasão à lua dos doidos varridos, Michael Jackson nunca caiu nesse agá minúsculo, pra enganar moça, ora direis, de pisar nos astros distraído.
Ele andou palmos acima, seu mar vermelho, tábuas sagradas, Moisés da hora, por entre as nuvens do auto-engano, por entre os dez mandamentos, a terra é azul….
e ele, marcha à ré, se move.
Estátua.
Stop.
Parou ele ou parou o pop?

 

*Crônica publicada em 17 de outubro de 2004 no brioso Carapuceiro 

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Em louvor a São João

No altar dos santos juninos, indubitavelmente (recebam) São João merece um lugar de especial destaque. Confiram.

 

 

 

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Um fado para uma santa

Aceito que me acusem de quase tudo, pois devo ter uns três ou nove defeitos, mas há uma imputação que repilo (Dirceu, José; 2005) de forma veemente: a de que não respeito as tradições. Isto, nécaras.

É óbvio que não chego a ser um José Ramos Tinhorão, que deus o tenha, porém acho que a esculhambação deve ter um freio e é obrigação preservar nossa cultura.

E qual é nossa cultura neste mês de junho? Ora, entoar cantigas em louvor aos santos. Então, seguindo esta estratégia religiosa-musical, renderei homenagem a uma santa. Mas, não uma santa qualquer. Minha formação comunista ortodoxa impele-me a postar-me do lado dos oprimidos. Por isso defenderei uma santa deserdada.

Aliás, se eu fosse um pouco mais cretino do que de costume pegaria este embalo e desenvolveria agora uma abalizada análise comparativa entre as dores do fado e de minha santa querida. Falaria de plangência e outras mumunhas. Porém, sigo sempre o conselho de minha finada mãe: “Meu filho, até a fraude deve ter limite”.

Assim, apenas levanto minha voz em defesa da Geni do Panteão, aquela que mais sofreu injúrias e difamações, a menina Maria Madalena. Na verdade, a voz que se alevanta não é minha - e sim a da fadista Lucília do Carmo. Portanto, encerro esta rápida prosopopéia e entrego o microfone a quem de direito. Ouçam.

 

A letra abaixo foi retirada DESTE BLOG  por indicação da menina Luiza.

 

Maria Madalena

Mote de: Augusto Gil / Glosa de: Gabriel D’Oliveira /Popular *fado das horas*

Repertório de Lucília do Carmo

Quem por amor se perdeu
Não chore, não tenha pena
Uma das santas do céu
Foi Maria Madalena

Desse amor que nos encanta / Até Cristo padeceu
Para poder tornar santa /
Quem por amor se perdeu

Jesus só nos quis mostrar / Que o amor não se condena
Por isso, quem sabe amar /
 Não chore, não tenha pena

A Virgem Nossa Senhora / Quando o amor conheceu
Fez da maior pecadora /
Uma das santas do céu

 

E de tanta que pecou / Da maior à mais pequena
Aquela que mais amou / 
Foi Maria Madalena

 

 

 

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