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Mayra

Nas raras vezes em que tive o desprazer de ver e ouvir aqueles senhores engravatados  propagando seus discursos bonitos e estéreis à beira do túmulo, reforçou-se uma de minhas poucas convicções. Qual seja: Há muito mais valor numa inexistente nota de três dólares do que nas laudatórias saudações fúnebres.
Putaquepariu o coveiro!

Aliás, pior. Por não crer na redenção dos justos, na vida eterna, amém e etc e coisa e tals, sempre achei este negócio de mensagens póstumas um tanto quanto cretinas – principalmente as feitas com voz empostada. Por isso, e por restar-me um tanto assim de vergonha e dignidade, fugia das referidas pregações como uma madame de loja de grife  escapole das malhas do fisco.

Porém, conforme já repeti diversas vezes aqui nesta ordinária tribuna, convicções e certezas são bichos traiçoeiros. Basta um descuido e… vupt….começamos a concordar com aquilo que desprezávamos.

Pois muito bem.

Estes bestas prolegômenos são apenas para dizer que, pela primeira vez na vida, fiquei sinceramente emocionado com algo que abominava: Uma nota de pesar. E pior. Uma nota de pesar de um partido político.

Mas, a verdade é que, ao ler a homenagem póstuma em forma de moção apresentada pelo PT por causa da injusta e precoce morte da menina Mayra Landim, meus olhos ficaram rasos d’água. Não sei os porquês, porém sei que, de alguma forma, havia verdade nas palavras do partido – mesmo partido que abandonei há cerca de duas décadas, antes mesmo de filiar-me, por não concordar com seus (des) caminhos.

Mas, derivo. O fato é que quando li/ouvi eles dizendo que “Mayra sempre teve a capacidade de agregar de modo sério e afetuoso a diversidade política”, não me pareceu mais um discurso vazio, politiqueiro, mas sim a representação do que foi (e é) Mayra: Uma pessoa séria e afetuosa, que realmente compreendia e respeitava a diversidade. Uma menina quase-paradoxo, pois era militante e estudiosa, gentil e firme, coisas um tanto quanto antagônicas. 

Por falar em antagonismo e discrepâncias, lembro que, apesar de infelizmente convivermos tão pouco, Mayra tinha uma força tão forte de persuasão pelo exemplo que quase me leva a cometer um dos maiores desatinos de minha vida: Participar de um governo.

“Sandro (era assim que ela me chamava, talvez ainda por influência de Zé), venha colaborar conosco na implantação do Orçamento Participativo”, convidou-me no início de 2007. E eu, mesmo avesso a governos, fiquei balançado, especialmente por saber que, com Mayra, poderia ser diferente. Porém, feliz ou infelizmente, acabamos não trabalhando juntos. Registre-se que o convite muito provavelmente aconteceu por influência de Araka, que, como bem disse Bina, tem o dom de se preocupar mais com os outros do que com ele mesmo.

E já que falei em preocupações e cuidados, Araka sempre estava na lista de prioridade máxima da menina Mayra.  Não à toa que ela, sempre tão ponderada, perdia a noção e acreditava que eu tinha alguma ascendência sobre o referido. Assim, de quando em vez, nas inúmeras aprontações do sacana, ela me ligava: “Sandro, toma conta de Araka e manda ele vim pra casa, pois ele te obedece”.

Aooonde? Só uma santa como Mayra para acreditar neste tipo de milagre. Aliás, talvez até fosse verdade, pois Mayra era uma pessoa que fazia com que os milagres não fossem este algo tão intangível.

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