Na minha extensa nominata de defeitos não se inclui a incompreensão. Desde sempre, por formação democrática, aprendi a respeitar (e conviver com) os contrários.
Para que vocês tenham idéia de meu tolerante espírito, tenho amigos que gostam até de Djavan e/ou de teatro. E não os recrimino. É como diz o poeta Tiririca: “gosta de Djavan, mas é meu amigo; gosta de teatro, mas é meu amigo”.
Aliás, por falar nas artes cênicas, o menino Nelson já ensinou que só os idiotas da objetividade não compreendem que em qualquer baba de ponta de rua há mais complexidade do que nas tragédias shakespeareanas. Touché.
Pois muito bem.
Apesar de toda esta minha vocação para compreender a alteridade (chupa, Levinas!), há algo que não aceito, não tolero, nem perdôo: a falta de paixão pelo futebol. Pra mim, isto é inadmissível, demonstra um mau caratismo sem tamanho. Pior: uma falta de caráter.
Porém, carpinteiro do universo, sempre procuro consertar o que tem não pode ser. Acho que há cura até mesmo para estas almas insossamente atormentadas. Assim, faço uma última tentativa de convertê-las para o caminho da salvação, reproduzindo o texto abaixo do escritor espanhol Enrique Vila-Matas, publicado no livro: A Cabeça do Futebol.
Ouçam, hereges, ajoelhados no genuflexório.
“Na década de 90, fiz certa amizade com jogadores de futebol que liam. Especialmente com Pardeza e Pep Guardiola. Eles queriam que eu lhes falasse de literatura, e em troca, eu queria que eles me contassem segredos de futebol. Martirizei os dois durante várias noites, perguntando-lhes se existiam jogadores de futebol bem-sucedidos que no mesmo campo tivessem se conscientizado, um dia, de que acabavam de fazer a melhor e última grande jogada de sua vida. Tratava-se, obviamente, de uma pergunta que, em termos literários, poucos escritores aceitariam responder. Eu, ao menos, não conheci ninguém que estivesse disposto a reconhecer que seu melhor livro já tinha sido escrito. Pardeza e Guardiola saiam pela tangente e sempre acabavam evitando a resposta para minha pergunta noturna e obsessiva.
Achei a resposta casualmente, anos depois, na trágica história Abdón Porte, meio-campista do Nacional de Montevidéu. Rosto fino, cabeleira escorrida, muito alto, tenacidade combativa. Corria o mês de março do ano de 1918 e no Uruguai era jogado naquele tempo o melhor futebol do mundo. Abdón Porte tinha 27 anos e era o ídolo dos torcedores do Nacional, embora estes não soubessem que Abdón sabia perfeitamente sabia perfeitamente que já tinha feito a última grande jogada de sua vida. Tinha entrado em um ligeiro declive do qual tinha consciência, e se via substituto de outro meio-campista na seguinte temporada. Toda a torcida tricolor (branco, azul e vermelho são as cores do Nacional) amava Abdón Porte, e naquele dia de março a equipe derrotou por 3 x 1, em seu estádio do Parque Central o Charley. Depois da partida, Abdón foi festejar a vitória com seus companheiros. A uma da madrugada, despediu-se de todos e disse que tomaria o trem na estação central. Porém, algo aconteceu quando ficou sozinho e ele mudou de idéia, retornou ao estádio. No meio da noite, foi até o círculo central do campo, onde tinha o costume de reinar. Ninguém mais o substituiria. Ali, no próprio centro do estádio, matou-se com um tiro no coração.
Na manhã seguinte, o goleiro da equipe, que foi o primeiro a entrar no estádio, encontrou o corpo do meio-campista. Junto ao revólver, um chapéu de palha, com duas cartas. Em uma delas, despedia-se das pessoas amadas. E na outra, - para que digam que literatura e futebol estão brigados – uns versos copiados a mão:
‘Nacional embora em pós convertido/
e em pó sempre amante/
não esquecerei um instante/
o quanto me é querido/
Adeus para sempre’
Coração tão tricolor. Ainda hoje, em todas as partidas jogadas no Parque Central, pode-se ver na tribuna uma bandeira com a legenda: Pelo sangue de Abdón. ‘Insípida de alegoria – alguém escreveu. Ali onde estava, sendo dono do meio-de-campo, queria que o tempo se fizesse eterno’. Insípida ou não, duas semanas depois daquele suicídio, Horácio Quiroga, contista magistral e uma das vidas mais trágicas da literatura, baseou-se na história de Abdón para escrever Juan Polti, Half-back, um relato que publicou na Revista Atlántida em maio de 1918. ‘Quando um rapaz chega, por A ou B, e sem prévio treinamento, a gostar deste forte álcool de varões que é a glória, perde a cabeça irremediavelmente’. Desse álcool de varões e do mítico suicídio falaria também, anos mais tarde, o relato Muerte en la cancha, de Eduardo Galeano.
Em 13 de julho de 1930, sem relação alguma entre o suicídio do meio-campista e a competição universal que começava, ocorreu no estádio do Parque Central a primeira partida de toda a história dos mundiais de futebol. Enfrentaram-se Estados Unidos e Bélgica. Assim, se pode dizer que a primeira bola do primeiro mundial começou a rolar a partir do lugar exato onde Andón caíra morto, daquele círculo central no qual o meio-campista decidiu jogar sua última partida, eterniza-se no centro do mundo, do seu mundo”.






on Jul 17th, 2009 at 4:09 pm
Ô Franci, se é assim, acaba aqui nossa amizade.Eu detesto Djavan, mas tenho um certo carinho pelo teatro.Agora, a condição pra deixar de ter caráter…ops…amizade “mais tu”, for a paixão pelo ludopédio…lascou!Até agora o mais perto que cheguei disso foi gostar do hino do Bahia…(apesar de adorar ler o VQST, me divertir à beça e chegar ao ponto de torcer pelo Vitória…)
MAs, se assim tem que ser…
Adeus!!
(mesmo achando que tu devia reconsiderar, pois eu aceito até amigo que tem DVD de Zezé de Camargo e Luciano…eu sou um bom espírito…)
[Reply]
on Jul 17th, 2009 at 4:21 pm
Fantástico e Borgeano, este texto é um achado e um machado (não confundir).
Percebo que, assim como um amigo meu de Judiaí diz que Campinas e São Paulo fazem parte da Grande Jundiaí, arrisco-me a dizer que o futebol atual de Brasil e Argentina é apenas eco daquele Grande Uruguai.
[Reply]
on Jul 17th, 2009 at 5:28 pm
Já que é preciso avisar e dar o serviço, um alerta aos navegantes:
Apenas até domingo estará em exibição no piso 3 do Shopping Iguatemi (é a lei. Quando um lugar começa a precisar de gente, chama logo o rock) a Mostra “Eles estão entre Nós”. No meio da bagaça, algumas imagens do povo que bota o rock pra frente, em queda livre, capturados pela sensacional Sora Maia que mandou convidar todo mundo pra beber um chop às proprias custas, ou um sorvete na Fredíssimo, ou mesmo comprar umas meias de polyester na Riachuelo, enquanto apreceia a juventude de Pitty, a alma de Vandex, o vôo de Rodrigo Sputter, os Retro e Dead Billies (claro), Fábio Cascadura, em tempos de índio amigo, Peu, Peu de novo e mais outras fotos e fragmentos do universo roqueiro da Bahia.
Vai Lá!!!!!! (com o dedinho pra cima)
Ps: Franci, depois a mando a foto e a fatura.
[Reply]
on Jul 20th, 2009 at 12:25 pm
Estoi muy emocionado!
[Reply]
on Jul 20th, 2009 at 12:59 pm
Eu acredito é no Vitória!
Bora Vitória PORRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ps: e a desgraça do Roger continua lenhado meu baba hein
[Reply]