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Rio, Taxis e Aguinaga: condenados à decadência

Há exatamente uma semana e 12 minutos, na esquina da Hilário de Gouveia com a  Barata Ribeiro, o Pavão Azul cumpria sua função social de Buteco*:  servia um rango de responsabilidade a preço de verdade, igual ao armarinho Paes Andrade.

Em troca, cobrava-nos, além dos parcos caraminguás, um tanto assim de paciência para aguentar os tradicionais desconfortos: mesa suja, cadeira cambaleante  e demora no  atendimento. Porém, a cerveja gelada e a conversa (boa e) fiada ajudavam a pagar o ingresso e suportar estas pequenas intempéries. 

Para completar o folclórico quadro, bastava somente mandar o garçom perguntar ao freguês ao lado o resultado do futebol. Não o fiz porque não qui-lo (dá-lhe Jânio) e também  porque aquelas porções de injúrias humanas que infestam estes ambientes  insalubres, além de serem metidas a gás com água, sabem nada sobre o ludopédio. Ademais, outra impossibilidade: a peleja que interessava, Vitória x flamengo, só se realizaria no day after (sim, para falar do Rio de Janeiro, é preciso um bocado de frescura e estrangeirismo).

Mas, derivo.

O fato é que já perto do sol se por (mentira, o tempo tava nublado), eis que abandono meus companheiros de infortúnio para fixar minha atenção numa figura que anda pela calçada com um chinfra que não condiz com seu porte físico.  Roupa folgada e chinela havaiana, a referida criatura desfilava como se estivesse num programa de Flávio Cavalcanti. Na verdade, ele já estivera lá há quase 40 anos e…
 
“Sêo Francis, quem é esta entidade?”, interrompe-me  a menina Larissa Dantas, com a curiosidade típica de seus 26 anos. 

Ainda absorto em minhas vastas reflexões e pensamentos imperfeitos, respondo: “Ele é o Rio de Janeiro, Lari”. 

É óbvio que, assim como vocês, ela também não entendeu. Mas, como tenho paciência com as moças de 20 e poucos, expliquei.

Seguinte é este.

No ano da graça de 1970, Pedrinho Aguinaga (eis o nome da peça) foi eleito o homem mais bonito do Brasil. Com o título na mão, nenhuma idéia na cabeça e uma estampa razoável, ele flanava pela então cidade maravilhosa pisando nos astros distraído. Hoje, é apenas este farrapo que você está vendo.

Nesta mesma época, continuei a comparação, o Rio de Janeiro, mesmo tendo perdido o status de capital federal para aquela inóspita e insossa urbe do Planalto Central, ainda tirava onda de centro cultural de Pindorama e etc e coisa e tals.

Pois muito bem. A verdade que salva e liberta é uma só. O tempo, que nunca suspende o seu vôo, transformou o Rio de Janeiro num Pedrinho Aguinaga e vice-versa. Sobrou apenas pose. E muitos taxis, taxis e taxis.

Putaquepariu a mulher do padre! É inadmissível uma cidade com tantos taxis.

E aos que pensam que minha abalizada análise foi muito rasa, que não captei a essência da cidade nos poucos dias de convivência, saco do coldre os ensinamentos do menino Oscar Wilde: “Só os espíritos levianos não julgam pelas aparências”.

E, aparentemente, vos digo: Uma cidade com aquela quantidade de taxis está irremediavelmente condenada à decadência.

* quem grafa buteco e OUTRAS PARADISIÁSCAS REGIÕES com  ó merece uma surra de cansanção e urtiga. 

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7 Comments on “Rio, Taxis e Aguinaga: condenados à decadência”

  1. #1 Luiza Meira
    on Jul 10th, 2009 at 4:21 pm

    Não tem excesso de rabugice não, Butra?Eu quero ter uma imagem mais bonitinha de São Sebastião…
    Gostei mesmo foi da comparação com Pedrinho Aguinaga!!Tá pensando que a janeirada alisa alguém???Ô grória!!!!

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  2. #2 Sinditáxi
    on Jul 10th, 2009 at 4:46 pm

    Última forma para o editor em protesto pela relação injusta entre táxis e decadência.

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  3. #3 MarcosVP
    on Jul 11th, 2009 at 12:10 am

    Nobríssimo, eis aí que nesta sua verve e bom humor - coisa já não disponível para os moradores da outrora muy leal e heróica São Sebastião do RJ - disseste-o tudo. O Rio é decadente, cheira a mofo e é como as enormes e encanecidas cristaleiras das salas das casas de família de Copacabana: um valhacouto escuro e empoeirado, mas repleto de boas lembranças do passado.

    O Rio é isso mesmo. No aspecto físico, né, porque no moral, a decadência vem de Estácio de Sá.

    Abs e mais uma vez, um ganiduoso lamento de não poder ter-lhe recebido como deveria.

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  4. #4 Anrafel
    on Jul 11th, 2009 at 11:01 am

    Abri o link de Pedrinho Aguinaga. Lá, a reportagem se refere ao filme Rio Babilônia como ‘polêmico”. Estranhei - polêmico!? O filme é uma porcaria, e ponto.

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  5. #5 Nílson
    on Jul 12th, 2009 at 11:42 pm

    Rio degenera, como já disse alguém. E merece um paper, digo peiper, nos anuários econômicos, essa brilhante teoria da relação entre taquiceiros e desdesenvolvimento. Se contar os mototaquiceiros…

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  6. #6 Larissa
    on Jul 13th, 2009 at 10:46 pm

    Rapaz…excelente, mas faltou vc dizer que numa cidade que tem tanto táxi, mesmo assim, a Lei de Murphy impera. Na hora que precisamos de um mísero táxi ele não apareceu. E quando veio ainda tive que ouvi o taxista perguntar: vcs voltam pra Vitória quando??!!!

    Lari,eu parei de dar ouvidos àquele filhodumasanta,quando nem bem entramos no taxi e ele largou: “Ganhamos e perdemos um penalti ainda,hein?”

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  7. #7 Ricardo C.
    on Jul 17th, 2009 at 9:22 pm

    Sacanagem, o Pavão Azul fica a duas quadras do Bairro Peixoto, onde habito. Poderia facilmente ter tomado umas Originais super geladas, comendo pataniscas e de sobremesa o pudim de leite condensado mais honesto que já comi fora de casa.

    Quanto ao Aguinaga, pelo visto bate ponto por lá, com ar de o tempo não passou pra mim. Pior cego é…

    Mas deixo registrado: vocês são foda, e desta vez não é elogio.

    Abraços

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