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Em defesa dos caçulas

Há séculos que sou acusado de ser assim (todo cheio de razão e nove horas) por ser caçula. Fico virado nos seiscentos com tal imputação, que não é descabida, mas silencio porque me falta o latim necessário para retrucar. 
Porém, mesmo não tendo encontrado a graça da Igreja Universal, parei de sofrer. E o responsável por tão gloriosa dádiva foi o menino Lionel, que joga bola como o Richie, canta como o Messi, mas escreve bem como o diabo. Mas, chega de lero fiado e fiquem com a fina prosopopéia do referido.
     
EGOISTA, S.M. SUJEITO MAIS INTERESSADO EM SI PRÓPRIO DO QUE EM MIM
Brasileiro que é brasileiro adora um bordão, um clichê, uma máxima repetida à exaustão como se fosse a mais incontestável verdade. Eu, como não poderia deixar de ser, não fujo à regra e uso meus lugares-comuns de vez em quando — afinal, ninguém é de ferro.

Contudo, como hipócrita praticante que sou, sempre fiquei incomodado quando um desses chavões me prejudica diretamente, como, por exemplo, a ideia de que “todo caçula é mimado“.

Eu, que sou caçula desde pequeno, sempre senti na pele a cruel discriminação da sociedade neste ponto. E o pior, de forma injusta, pois as espartanas habilidades pedagógicas de meu pai nunca me permitiram fazer o tipo cheio de vontades.

Na verdade, qualquer tentativa de capricho de minha parte costumava ser prontamente repreendida com um discurso de meu estimado genitor: “você é muito mal acostumado! Lá no meu norte não tinha nada disso e nós vivíamos muito bem!”, ao que eu responderia algo como “mas pai, você nem é do norte, sua cidade fica na região sudoeste do estado, sertão da Bahia”.

É claro que a essa resposta seguiria-se um safanão na orelha para eu deixar de ser contestador, o que me faria lamentar profundamente o fato de o sertanejo ser, antes de tudo, um forte.

Devo reconhecer, contudo, que alguns representantes da classe não ajudam em nada, a exemplo de meu ex-cunhado, de quem agora posso falar sem temer represálias (não que eu tivesse medo de minha então consorte, já que, como todo mundo sabe, baiano medroso nasce morto. Se eu eventualmente me escondia debaixo da cama quando ela estava naqueles dias era apenas porque, não obstante minha condição de agnóstico, seguia à risca o quanto determinado em Levítico 15:19).

Hum, pensando melhor, deixa esse assunto para lá.

O fato é que, fora aquelas duas ou nove vezes que roubei o carro de meu pai e ainda reclamei por ele estar sem gasolina, nunca me foi dado ter o tipo de comportamento comumente atribuído aos filhos mais jovens, mas mesmo assim sou obrigado a responder pelo estereótipo. Triste sina.

Pior ainda é constatar que os caçulas são discriminados de forma aberta, sem qualquer pudor. Não há nenhum movimento organizado pela defesa de nossos interesses, nenhuma manifestação no sentido de criar um neologismo politicamente correto para nos classificar, nenhuma ação afirmativa, nada!

O simples fato de termos nascido depois não nos torna automaticamente egocêntricos. Não é como se fôssemos filhos únicos, aquela raça de mimados cheios de vontades e caprichos.

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6 Comments on “Em defesa dos caçulas”

  1. #1 felipe nogueira
    on Jun 12th, 2009 at 7:50 pm

    franciel,
    Sou mais velho e a caçula se lascou comigo impliquei com a bichinha até a ninfa poder se defender e mandar a rebordosa. Agora a maioria dos caçulas que eu conheço tem uma certa revolta, um complexo de querer superar os mais velhos e chamar atenção.
    Essa cabeleira revolta sua não é um certo indicativo?!kkk

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  2. #2 Luiza Meira
    on Jun 13th, 2009 at 10:08 am

    Essa foi ótima!!
    Fiquei só me lembrando de minha pobre irmã caçula que tinha que obedecer ordens de três Meiras fraternalmente endiabrados que diziam quase em coro:”_Obedeça, pois você é pequena!!”. Agora já não sei se acho graça (ô irmã ruim eu era, tá doido!!)das pirraças à pobre menina, ou me lembro com raiva de D Lia:”_Coitadinha da minha raspa de tacho, vem pra mainha, vem, fiinha…”)
    Hoje os “caçulo” são os que mais “brocam” (tinha o caçula dos homens e o caçula das mulheres, pois somos quatro, dois “meninos” e duas “meninas”.)

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  3. #3 Franchico
    on Jun 13th, 2009 at 10:22 am

    Em resposta ao post de Franciel, lanço aqui e agora o Manifesto dos Filhos do Meio. Como legítimo representante da classe, afirmo que ser filho do meio (nascido entre o primogênito e o caçula), é que há de melhor em termos de relações familiares. Nem tão cobrado quanto o primogênito, nem tão paparicado quanto o caçula, o filho do meio goza de toda a independência necessária para catar da bicicleta e se picar quando o bicho pega para os outros dois. O primeiro, por que já é muito velho para brincar e o último, por que é pequeno demais. Enquanto as duas pontas da filharada são constantemente vigiados, cobrados e repreendidos, o filho do meio, à sombra e água fresca dos outros dois, fica livre para se lambuzar de liberdade, chocolate, água da chuva e a lama que espirra das rodas da bike direto na camisa esgarçada. (É claro que uma boa dose de sonsidão também ajuda, né?) Se algum dia eu nascer de novo, espero ser filho do meio mais uma vez. Obrigado, Jésus!

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  4. #4 Nílson
    on Jun 13th, 2009 at 5:32 pm

    Com que então que o senhor é uma espécie de caçulinha?

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  5. #5 Lionel
    on Jun 13th, 2009 at 6:48 pm

    Franciel, muito obrigado pelos imerecidos elogios (fora a parte de cantar como Lionel Messi e jogar bola como Lionel Richie, essa parte é verdade). E obrigado também pela força, nós temos mesmo que nos unir contra essa absurda discriminação da sociedade.

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  6. #6 Luiza Meira
    on Jun 14th, 2009 at 10:57 am

    Ei, Franci,
    Todas as vezes que você recomenda (faz isso quando diz que alguém escreve bem) algum blog, eu trato logo de ir lá “cuscuiá”.Até hoje não me decepcionei.O moço que não é nem Ritchie e nem Messi manda ver na “Falta de Esculhambação”!

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