Caso me guiasse apenas pela lógica cartesiana, devia estar retado agora, virado nos seiscentos. Afinal, sexta-feira é um dia santo, dedicado ao ócio e não à labuta. E cá estou neste augusta e egrégia casa de tolerância para mais um dia de árdua peleja. Mas, noves fora este revés, eu confesso abestalhado que estou rindo à toa. Antes, porém, que os fariseus comecem a insinuar maledicências, explico logo o porquê do breve contentamento.
Seguinte.
Exatamente às 11h34 minutos da madrugada de hoje, consegui pegar o glorioso Sussuarana R-2 praticamente vazio. Algo que nem a ciência mais avançada e moderna conseguirá explicar. Um verdadeiro milagre. Além deste sortudo locutor, do motorista e do cobrador, apenas mais duas ou três almas penadas escornadas e espalhadas pelo buzu. Parecia até quinta-feira de cinzas.
O motivo da minha besta alegria, no entanto, não foi apenas isso. Veio em seguida, após recostar-me na confortável poltrona da frente e escutar o seguinte diálogo. Escutar e participar, de alguma forma.
Com aquele tradicional jeito baiano de quem lhe conhece desde pequeno, o motorista larga logo a seguinte.
- Bacana (bacana sou eu), tá vendo este cobrador aí? (Lógico que eu tava vendo. Impossível não perceber aquela figura, digamos, excêntrica e com um bigode à la Sammy Davis Jr.).
Lacônico, como convém a um passageiro, digo.
- Prossiga, excelência.
- Você não dá nada por ele, mas é um miséravo. Bota pra fuder. Come tudo, não libera nada, principalmente as velhinhas.
Nosso Sammy Davis, que ouvia tudo sossegadamente, interrompe.
- Não é bem assim, não, papá. Digamos que tenho um certo apreço pelas idosas.
O motô, então, retorna à tribuna.
- Rapaz, este miserávo não libera ninguém. Outro dia mesmo comeu uma senhora de quase 70 anos, mãe de um colega nosso que trabalha na Vimbemza. ( Eu sei, rebanho de sacanas, que a Vimbemza não existe mais e que a grafia correta é Vibemsa. Escrevi assim para tirar de tempo e não entregar nosso herói à ira santa do colega de profissão, que não ia ficar nada satisfeito ao saber que a sua (lá dele) genitora estava indo às vias de fato com o referido).
Mas, Sammy Davis interrompe novamente.
- Peraí, pai véi. Ela só tinha 63 anos.
Pego afeição pelo dom ruan que comanda a catraca e saio em sua defesa.
- Porra, motô, você tá de sacanagem. A moça só tinha 63 anos e você dizendo que era 70.
O condutor da marinete, então, se reta e parte para o ataque covardemente.
- Vá, sacana, defendendo este desinfeliz que uma hora desta é sua mãe que cai no plantão dele. E tem mais. Ele ainda costuma estorquir as coitadas.
Ao ouvir tal heresia, nosso herói estrila. E, em seguida, dá uma verdadeira aula sobre os fragmentos das relações amorosas, coisa de deixar Barthes no chinelo. Ouçam.
- Motô, aí é que você se engana. Outro dia mesmo uma amiga (é assim que ele trata as vítimas) queria me dar seu voyage seminovo e eu recusei. E disse para ela. ‘Que é isso, mãe. Tudo que faço é por amor‘.
Sem deixar brecha para o contrataque, o galante cobrador prosseguiu.
- É óbvio que não foi por amor. Não apenas por isso. É que mulher é um bicho sacana da porra, véi. É capaz de ela me ver com outra, o que é meu direito, e querer pegar o carro de volta só por isso. Como sei que ela não vai passar a máquina para o meu nome, então recuso tudo para não ficar amarrado. Eu quero apenas uma casinha, que não tenho dinheiro para pagar motel, uma cervejinha gelada e um descanso. É lógico que, se ela se agradar do papai aqui e quiser dá uma ponta e eu estiver no momento de aperto, não vou recusar. Afinal, tenho muito defeitos, mas não sou orgulhoso.
Paraí, motô, ó meu ponto, véi.
Já fui Banda Aiyê






on Feb 13th, 2009 at 3:23 pm
quenumsiviraxtrumbica
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on Feb 13th, 2009 at 6:11 pm
Franciel, se eu fosse vc, descia no ponto final, pagava outra passagem, mas eu ia ouvir o diálogo até o fim.
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on Feb 14th, 2009 at 2:20 am
Quer dizer que agora até na sexta-feira, nesta casa abençoada que guarda as sextas, sábados, domingos, véspera e ante-vespera de dia santo os nobres resolveram labutar? Estamos ferrados… Mas quanto ao que interessa, ou seja, ao perfil psicológico do nosso édipo de bigode, ele se entrega no texto: ‘Que é isso, mãe. Tudo que faço é por amor‘.
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on Feb 14th, 2009 at 11:51 am
Rapaz, outro cara que faz um sucesso danado com as balzacas é o sacana do Claudio Leal. Pergunte a Consuelo Pondé. Até hoje eles trocam longos telefonemas noturnos. Soube até que ela sobe pelas paredes quando ele diz frases na lingua Tupy imitando a voz do General Leônidas.
No mais, é como dizia o meu primo Ruy enquanto traçava o sobrecu de uma galinha no almoço de domingo. “Que delícia! É a segunda vez que eu como essa região!”.
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on Feb 14th, 2009 at 7:08 pm
Felizmente mamãe nunca foi à Bahia.
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on Feb 14th, 2009 at 7:47 pm
Gostei do estilo Franciel!!!
Parabens!
Noé
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on Feb 15th, 2009 at 9:36 am
O furdunço na Bahia tá grande. Depois de arrasar no Blog Impedimento e ser citado por Xico Sá, na Folha de São Paulo, eis que o moço Franciel estampa no Portal Terra (e no Terra Magazine) esta mesma postagem daí de cima. Dizem que nas grandes redações tem neguinho tremendo nas bases com mais esse baiano domador de pontos, vírgulas et etc (assim pode, Janjão?). Inclusive ouviu-se o seguinte papo numa delas. “O menino escreve pra caralho, mas com esse nome…!”. No que o outro respondeu: “E o que é que tem? Se fosse assim Xexéo não era o todo poderoso do Segundo Caderno de O Globo”. Toca o bonde, Franci!
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on Feb 15th, 2009 at 1:03 pm
Véio, tudo isso que você falou é fichinha. O que realmente abalou o Norte e Nordeste de Amaralina foi uma citação no Vespertino de domingo passado, na gloriosa página três. Aquela ali foi fueda.
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on Feb 16th, 2009 at 4:24 am
Ohhh véii !
Eu tô longe pra caralho de Salvador, man. Mas me senti em casa com esse texto. E tenho uma leve impressão de ouvir histórias como essa a cada que voltava pra casa !
Abraço e você foi pro meu RSS !
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on Feb 17th, 2009 at 1:39 pm
Esse Franciel é um gigante das letras, pai !
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on Feb 17th, 2009 at 5:34 pm
É “extorquir”, velho Franças.
Grande Abraço.
PV.
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on Feb 17th, 2009 at 5:40 pm
Deixe de modéstia, que você não é de boiolismo, e diga logo que o texto saiu na Terra Magazine, rapaz. Que cousa!
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on Feb 18th, 2009 at 3:30 am
A primeira repercussão dos ensinamentos do sábio Sammy Davis Jr foi logo no mesmo dia, para os seis leitores do coco pequeno. Só no dia seguinte, o pessoal do Terra acordou para a qualidade do texto produzido naquele dia de labuta na tal casa de tolerãncia, onde o ditado é outro: “A gente ganha muito mas se diverte”.
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3574983-EI11363,00-Dialogos+impertinentes.html
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