“Efeméride nunca foi o meu forte”, conforme assinalou certa feita o menino Tumbu. Mas, para confirmar a regra, sempre existe a exceção. E a minha é hoje: 2 de dezembro. Desde que eu me entendo por gente, e lá se vão muitos séculos, todos os anos, nesta data querida, salve, salve, descambo rumo ao Centro Histórico para comemorar o glorioso Dia do Samba.
Antes de continuar esta ladainha, porém, solicito silêncio e tapete vermelho pois Paulinho da Viola vai adentrar neste terreiro. Atotô, meu pai, atotô,
Seguinte.
Apesar da devoção, tenho uma zanga da zorra pelo referido sambista. Não esta raivinha de tô de mal, tô de bem, mas um ódio bíblico, ancestral. Talvez vocês nem desconfiem, mas o filho de César Faria é responsável por uma das maiores vergonhas de minha vida querida que já não é nenhum mar de rosas.
Mais um seguinte.
No início da era cristã, havia prometido aos incontáveis santos desta vetusta província que jamais entraria em restaurantes metidos a besta – estes ambientes insalubres habitados por pessoas mais insalubres ainda.
Pois muito bem.
Até recentemente, minhas desgastadas alpercatas não passavam nem na porta de tais estabelecimentos. Eu disse não passava. Não é que o danado do Paulinho da Viola inventou de fazer uma apresentação no Porcão - e eu esqueci a promessa, esqueci tudo e desviei do meu caminho original. Mas, amigos, em verdade vos confesso: que plantão rigoroso. O sambista cantava e o povo comia e conversava e mastigava e conversava sem parar, quase aos gritos. Mas, ele prosseguia solene, nobre, pedindo um silenciozinho aqui, uma atençãozinha acolá e nada mais.
É um príncipe este menino. É por estas e outras que sempre que coloco um disco seu na vitrola (sim, sou do tempo do disco e da vitrola, qual o problema?), meu generoso coração o perdoa por esta desfeita, até porque Paulinho nunca se aborrece com nada. Ou melhor, quase nunca.
Em meados da década de 70, quando começou a proliferar os sambões de plásticos movidos a teclado capitaneados por Benito di Paula, Paulinho, que não é moderno, pois eterno, esqueceu sua tradicional beatitude e vociferou:
“Tá legal!
Tá legal, eu aceito o argumento
Mas não me altere o samba tanto assim
Olha que a rapaziada está sentindo a falta
De um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim
Sem preconceito ou mania de passado
Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar
Faça como um velho marinheiro
Que durante o nevoeiro leva o barco devagar”.
Mas, ninguém deu ouvidos ao velho marinheiro. E, desde então, a coisa só fez piorar.
Derivo, derivo. Todos estes prolegômenos (recebam, pagodeiros, um prolegômenos pelas caixas dos peitos) são apenas para lembrar que o Dia do Samba neste ano da graça de 2008 é dedicado a Paulinho da Viola. (Palmas, palmas, alvíssaras). Acontece que a organização do evento chamou sabe quem para assoviar e chupar cana em homenagem a Paulinho? Sim, ele mesmo: o homem, o mito, o pentelho: Benito di Paula.
É graça uma porra dessa?
Foi exatamente por causa de fatos desta espécie que, em meados do século XVII, Irmã Dulce sussurrou no ouvido de Octávio Mangabeira: “Pensem numa dança de rato. Na Bahia já tem precedentes”.
Por isso, sempre que me deparo com tamanho escárnio, aconselho: “Soteropólis, esconde o vermelho de sua cara sem-vergonha, disfarça e samba”.
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on Dec 2nd, 2008 at 10:50 pm
< ![CDATA[Mas que diabo foi que deu em Edil Pacheco e nos outros organizadores? Benito di Paula é de lascar!
Depois do alerta de "Argumento", o insuportável cigano-pianista(!) respondeu com uma cavalice à sua altura: "Olha o campo verde, é todo seu, rapaz".
E eu que estava até pensando em queimar o trabalho hoje. Não, não vou. Aquele elemento é demais para o meu pobre saco - ainda mais numa situação dessas.
(Paulinho da Viola, já há algum tempo é o músico brasileiro que mais freqüenta o meu toca-cd. Elegância, sobriedade, dicção perfeita (tudo isso latu-senso).
"Para ver as meninas", "Para um amor no Recife", "Coisas do mundo, minha nega" e outras tantas parecem que foram compostas hoje. Amor ao samba e desapego às modas.]]>
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on Dec 3rd, 2008 at 12:39 pm
< ![CDATA[Caro Franciel,
Soube que o senhor foi à Praça da Sé ontem para ouvir Não sou eu quem me navega e voltou para casa com Meu amigo Charles nos tímpanos? Cadê o post contando esta desdita histórica?]]>
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on Dec 3rd, 2008 at 8:40 pm
< ![CDATA[Com o perdão do trocadálho, um Edil merece a medalha Tomé de Souza; Edil Pacheco fez Benito desistir do piano.
A cena boa mesmo foi assistir Edil arranjar a bateria em cima da hora na casa Primavera, com cheque caução de um amigo, e carregar na cabeça a dita batera até o palco.
Uma grata surpresa, foi pra mim, a menina Rosa.]]>
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on Dec 3rd, 2008 at 10:43 pm
< ![CDATA[Postagem merveiê!
Beniiito... nem de Paula, nem Grana, nem nenhum.]]>
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on Dec 4th, 2008 at 12:49 pm
< ![CDATA[Com tanta gente ruim aí da terra, vão chamar gente ruim de fora. E o valor da prata da casa? Por isso essa província não vai pra frente.]]>
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on Dec 4th, 2008 at 4:16 pm
< ![CDATA[Sabe, eu fico assim cada vez mais desacreditando, entristecendo da preferência das pessoas pelos salgadinhos, ricos: carpaccios, coxinhas de siri, essa bobeira toda, e pobres: aqueles todos que a gente conhece, à música - ao samba, ao qualquer coisa. Estava eu faceirissima em meados de Julho de 2006, num desses lugares insalubres, mas "casa de shou" da cidadona de São Paulo, pra ver o digníssimo Chico Buarque, me espremia lááá no fundinho da casa de shous, e sabe o quê? sabe o quê?, no meio do mambembe passa um prato de coxinhas, outro de empadinhas, mais um refrigerante. . horrendo. . e as mesas não davam espaço pras pessoas, que assistiam sentadas ao velhinho cantando lá em cima.]]>
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on Dec 4th, 2008 at 5:02 pm
< ![CDATA[Nem tudo pode ser perfeito, nem tudo pode ser bacana]]>
[Reply]
on Dec 4th, 2008 at 6:25 pm
< ![CDATA[Seu Francis Hélio eu soube por fontes confiáveis que você fez esse alvoroço todo e nem lá pisou, como se explica!?
Me responda, como faço pra tampar a boca dos meninos de amaralina que teimam em cantarolar "Seu Franci é préssão, é préssão, é préssão, de dia é bahia de noite é Leão!"?]]>
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on Dec 4th, 2008 at 8:35 pm
< ![CDATA[Escrevo para expressar minha revolta com a desfaçatez e a falta de sensibilidade de Franciel em comparar Benito a esculhambação que campeia usando falsamente a rubrica de samba. Músicas como 'Do jeito que a vida quer' e 'Além de tudo' são clássicos canônicos do amor. E o que versa sobre as dores de amor jamais poderá ser pobre noetica e poeticamente, mesmo que não seja samba. Cada qual com seu cada qual: Paulinho é uma jóia rara, mas a gente não pode desprezar as bijouterias que embelezam com seu brilho enganador as nossas fossas e ilusões.
Feita a reclamação, esclareço o pouco que sei da noite de terça-feira a Chico que bateu no bode. Franciel saiu de circulação e não foi encontrado na Praça Municipal e nem no baba tradicional da semana, os vizinhos do Nordeste, mais uma vez, se mobilizaram e sofreram em vão: no outro dia ele estava com a cara mais lisa dizendo que passou a noite dormindo em casa e que o povo faz enxame à toa.]]>
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on Dec 5th, 2008 at 3:47 pm
< ![CDATA[Franci eu vi dizer que ele tava na casa de tolerância do CAB bem na hora do samba; ou seja, quer dizer.....]]>
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on Dec 7th, 2008 at 7:14 pm
< ![CDATA[Poucas coisas nessa vida são capazes de interromper minha degustação de moqueca de língua de siri, aos domingos. Uma delas é exatamente essa, falar mal de Benito di Paula.
Sua sorte, Diamantino, é a qualidade do texto, a inventividade da abordagem e o fato de ser rubro-negro.
Não fossem esses atributos, conhecerias a ira do fã-clube do Benito, o único sambista que ousou fazer seus arranjos com um piano, o que alterou o samba sim. Pra melhor.
Humpf!]]>
[Reply]
on Dec 8th, 2008 at 2:56 am
< ![CDATA[Segue excertos do diálogo travado por Paulinho da Viola com Pierre Barouh, Maria Bethania e outros, numa praia carioca, idos de 1969, durante as gravações do doc Saravah, de autoria do próprio Barouh. Uma lembrança de que ainda é possível se praticar coerência diante da arte e da vida nessa terra de homens e mulheres de (boa) vontade:
LENA (para Bethania): ele perguntou pra você o que significa ser cantora brasileira.
BETHANIA: ser cantora pra mim é a gloria. Brasileira eu acho bacana, também.
(...) tome-lhe samba-canção (...)
PIERRE (para Paulinho da Viola): eu ouvi de um amigo de você, que você fez uma canção, um samba realmente tradicional que é “Nada de N...”
PAULINHO: Sei, chama-se “Nada de Novo”. Foi o último samba que eu fiz. Mas eu estava dizendo o seguinte: você perguntou a Bethania... o compromisso de Bethania... Bethania é uma outra escola. Você entende isso? Entende o que é “outra escola”?
PIERRE: sim, sim.
PAULINHO: uma outra formação, entende? Novas proposições dentro da musica popular. Agora, o meu compromisso... não sei se você sabe, eu sou um compositor de escola de samba.
PIERRE: sei sim.
PAULINHO (com olhos cortantes e voz mansa): e você sabe, na cultura popular, o que significa uma escola de samba? Sabe?
PIERRE: eu sei.
(...)
PIERRE: eu sei disso. Você poderia dizer, realmente, qual a importância da escola de samba e a função.
PAULINHO: a importância dela? (Pausa. Olha em volta com um riso no semblante) Não sei se você sabe, há 20 anos atrás uma escola de samba era um grupo que saía... entendeu... que quando conseguia se organizar, apanhava da polícia. Não sei se você sabia...
PIERRE: não sabia
Paulinho: era dos marginais
PIERRE: isso eu não sabia
PAULINHO: pois é, e era um grupo muito pequeno. E esse grupo foi se desenvolvendo. A medida que passou... e conseguiu, assim..., uma aceitação na sociedade, ele foi se desenvolvendo. E hoje é isso aí que você viu, 3 mil 4 mil pessoas. Uma escola de samba desfilando tem comunicação com milhares de pessoas, entende? Isso não existe em lugar nenhum do mundo (...) Eu acho isso importante porque de uma forma ou de outra, ainda tem... é um compromisso que existe do povo para com o povo. O povo se organiza durante um ano inteiro, pra fazer um espetáculo em função do mesmo povo. Tudo gratuitamente. Quer dizer, não importa se tem muita gente ganhando dinheiro atrás disso, se o departamento de turismo ganha dinheiro, nem nada, o que importa é o que o espetáculo é feito por 3 mil pessoas para milhares de pessoas.
PIERRE: e todo ano você desfila na Portela?
PAULINHO: todo ano, isso há muitos anos. Todo ano saio com escola, tenho um compromisso na escola.
PIERRE: e você não alteraria? E você tem alegria com a gente da Portela?
(corta a cena para um duo de Paulinho e Bethania na canção Tudo é ilusão, de Éden Silva, Anibal Silva e Tuffi Lauar, porque o que na verdade o gringo quer mesmo é sambar. E o mar se embala e se perde nas frases dedilhadas pelo filho de seo Cesar Faria:
"não, não foi surpresa para mim
porque tudo na vida tem fim
Eu esperei com resignação
O triste dia da separação
Vai meu amor siga o seu destino
Que eu seguirei o meu
Seja feliz, adeus”)]]>
[Reply]
on Dec 9th, 2008 at 2:01 am
< ![CDATA[Sofremos naquele Porcão, não Franci...rsrs
Porém, quem teve a insuportável companhia de Xangai jamais pode se queixar de "Bonito" de Paula, nada tem a capacidade de ser pior....]]>
[Reply]