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Confissões velhuscas (2º Cap.)

Apesar de saber que o assunto interessa a quase ninguém (ou talvez por isso mesmo), informo que fui professor de informática em meados da década de 80 do século passado. Naquela época, computador era coisa séria – tão séria e complicada, que era mais fácil encontrar um instrutor de javanês  do que de processamento de dados (eis o nome oficial de antanho). Nada a ver, portanto, com esta chibança de hoje em dia, quando qualquer menino buchudo fica malinando no referido maquinário. A bem da verdade, naquele tempo, minino pequeno não mexia em nada, sob pena de levar uns safanões. Aliás, os guris não possuíam direito algum, nem mesmo o de entrar, sem ser chamado, em um texto deste porte. Chispa, rebain de miséra.

Pois bem. Se, na ocasião, o entendimento do tema já era algo tão obscuro, complicava-se mais ainda quando este politizado locutor assumia a cátedra. Era um rebuliço dos seiscentos. As senhoras que se dirigiam ao glorioso Centro de Informática de Salvador (CIS), no não menos glorioso bairro do Politeama, para assistir às aulas de Fortran, Cobol, Pascal e outras mumunhas, ganhavam de bônus elucubrações sócio-político-econômicas e culturais.

Lembro-me que um dia, ao invés de ensinar as manhas da programação computadorística, ocupei o tempo das referidas senhoras falando sobre A paixão segundo a revolução, livreco de Paulo Leminski recém-lançado. A platéia, não sem razão, estrilou. Afinal, todos estavam ali para “se profissionalizar, se qualificar para o mercado”. Porra de Paulo Leminski.

Apenas uma saiu em minha defesa. Mas, logo nas primeiras palavras ficou óbvio que ela também não estava interessada em literatura ou revoluções. Porra de Paulo Leminski. Ela queria apenas era agradar ao professor para, talvez, ganhar uma boa nota. E falava bobagens com a profundidade de uma leitora de Lya Luft. Assim, entre a futilidade desta que me defendia e o bitolamento das demais, decidi ficar com estas últimas. Naquele instante, aprendi que aqueles que, açodadamente, mais querem se aproximar de você, são os que na verdade estão mais distantes.
E nunca mais tratei de algo que não se resumisse estritamente aos conteúdos das matérias de informática.

 

Agora, segurem-se nas poltronas que vou dar um salto de mais de uma década.

Pois muito bem. No final dos anos 90, mesmo contrariando minha religião, que não aconselha o comparecimento a noite de autógrafos, descambei para o insalubre Centro Histórico de Salvador para o lançamento do livro Vale a pena sonhar, de Apolônio de Carvalho. É óbvio que, nesta época, eu já sabia que não valia mais a  pena sonhar (não os sonhos ali relatados), mas eu gostava muito do personagem e autor da obra. E fui. 

Não bastasse ter que desembolsar 25 real, ainda tive que enfrentar uma fila do cabrunco e umas conversas chatas da porra. Porém, disciplinadamente, tal e qual o filho de Stálin, eu resistia a tudo e a todos. Eu disse resistia, pois perdi completamente a paciência quando uma jovem senhora resolveu se aproximar de Apolônio e de sua companheira Renée France. Perdi a paciência, eu dizia, porque a tal conversava tantas bobagens quanto aquela minha fútil aluna. Provavelmente, também deveria ser fã de Lya Luft, com o agravante de que não respeitava a ordem da fila.
Soube depois que era uma publicitária de esquerda (pfui), organizadora do evento, chamada Vera Rocha. Mas, em verdade vos digo: de todos os que compareceram à Fundação Casa de Jorge Amado naquela noite, ela talvez fosse a pessoa que estava mais longe do pensamento e das ações de Apolônio. E, no entanto, ficou lá encarnando nele boa parte da noite.   

Ao ver o contraste entre os trejeitos da referida e o semblante de Apolônio, novamente confirmei o tal axioma da primeira história. Qual seja. Aqueles que, açodadamente, mais querem se aproximar de você, são os que na verdade estão mais distantes.

Chispa, rebain de miséra.

P.S. Se chegou até aqui é porque você é um desocupado. Então, aproveite seu tempo livre e leia também Confissões Velhuscas (Cap. 1)

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8 Comentários on “Confissões velhuscas (2º Cap.)”

  1. #1
    on Nov 12th, 2008 at 10:29 pm

    < ![CDATA[Mantenha, pois, a distância regulamentar, seu Franciel.]]>

    [Reply]

  2. #2
    on Nov 12th, 2008 at 11:48 pm

    < ![CDATA[A familiaridade alimenta o desprezo.]]>

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  3. #3
    on Nov 13th, 2008 at 2:29 pm

    < ![CDATA[Seo Franciel,

    A senilidade é precoce...]]>

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  4. #4
    on Nov 13th, 2008 at 4:43 pm

    < ![CDATA[O prezado Franciel não confiou na própria intuição e deu um chega prá lá na aluna chata que talvez estivesse puxando o saco certo por linhas tortas. Falar de Trotsky em aula de informática (processamento de dados à época) mostrou-se profético: é a revolução permanente, meus caros.

    Quanto a noite de autógrafos, vernissages e fuleiragens similares, existe uma regra sem exceção: não comparecerás, jamais. Palavras da salvação.]]>

    [Reply]

  5. #5
    on Nov 13th, 2008 at 6:20 pm

    < ![CDATA[Antes que eu me esqueça, receba o Ingresia os parabéns pelo neo-galicismo: 'rebain de miséra'.]]>

    [Reply]

  6. #6
    on Nov 14th, 2008 at 9:22 pm

    < ![CDATA[Minino, cachorro e tamanco, tudo debaixo do banco.Chispa, rebain de miséra.]]>

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  7. #7
    on Nov 15th, 2008 at 12:30 am

    < ![CDATA[noite de autógrafos é , invariavelmente, programa de índio...]]>

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  8. #8
    on Nov 21st, 2008 at 2:20 pm

    < ![CDATA[Grande verdade. E isso apesar de vir de mistura com a mentirada sobre o ofício de professor de informática. Mas fica a verdade, enfim, nada é perfeito neste mundo.]]>

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