Conforme é de conhecimento da Bahia, de uma banda de Sergipe e 12,7% de Alagoas, este rouco e matemático locutor já havia prometido que não mais se pronunciaria sobre o menino Waldeck Artur de Macedo. Porém, há exatos 14 minutos e 32 segundos, mudei de opinião porque me lembrei que as canções do referido e adiposo compositor têm uma estrutura bastante complexa, quase contraditória. (Marconi Leal, que é metido a falar difícil, sugeriu que eu dissesse que as canções ”têm uma estrutura oximorística”, mas preferi recusar a sugestão por dois motivos. Primeiro, porque não sei o que significa a tal “oximorística”. Na verdade, nem sei se existe tal vocábulo. Segundo, e principalmente, porque fiquei com medo de ser processado).
Mas, antes que este longo e impertinente parênteses interrompesse nossa conversa, eu dizia que as canções do referido e adiposo compositor têm uma estrutura bastante complexa, quase contraditória. E têm mesmo. Para comprovar tal teoria, vejamos, alguns exemplos.
Incialmente, o caso do clássico Chiclete com Banana. Se a análise restringe-se apenas à letra, tem-se a impressão de que a referida é somente um protesto contra a invasão da música americana. Porém, quando escutamos a canção, percebemos que há ali não somente a crítica, mas também um elogio aos sons ianques. Gordurinha diz que não vai botar bebop no samba, mas o bebop já está lá no seu samba rock. Ele gostava de ver a confusão.
Já no extremo oposto, mas também permeada de, digamos contradição, está Súplica Cearense. A música é um lamento só, mas a letra é feita em tom de conversa com Deus, algo quase herético. Uma beleza de diálogo.
E as deliciosas ambiguidades e contradições não páram por aí. Em relação aos baianos, elas (as ambiguidades e contradições) merecem um capítulo à parte. O menino Gordura foi um dos poucos a não folclorizar a imagem do baiano. Ou melhor, folclorizou ao extremo, levando-a a um paroxismo tal que a defesa e a homenagem viram zombarias e vice-versa.
Ao mesmo tempo que compunha algo apologético, laudatório, como Baiano Burro Nasce Morto, ele satirizava os nativos na antológica Baianada: “Um baiano é uma boa pedida/ dois baianos é uma coisa divertida/ três baianos é uma conversa cumprida/ quatro baianos é um discurso na avenida”. Touché!
É isso.
Gordurinha era uma contradição (quase escrevo oxímoro) ambulante. Assim na obra, na vida como na morte. Talvez tal dado ajude a explicar muitas coisas, talvez não. O fato é que o esquecido Gordurinha era um gênio de personalidade complexa e humor inteligente. Pena que estas e outras qualidades, como pude observar recentemente, não são transmitidas pelo DNA. Alguns de seus descendentes não conseguem compreender nem mesmo as mais sinceras homenagens feitas ao referido.
P.S.1 Para encerrar (juro que desta vez é definitivo, prometo ajoelhado num vinil de Gordurinha que não volto ao assunto), reproduzo o seguinte e delicioso relato feito pelo pesquisador baiano Ricardo Cravo Albin. Ouçam.
“Lembro-me de que certa vez estava na casa do Luiz Gonzaga, na Ilha do Governador – lá por 1969, – quando entrou Gordurinha, muito pálido, arfante, olhos levemente esbugalhados. Gonzaga suspirou fundo ao ver o amigo naquele estado e me disse: “Esse cabra aqui me faz inveja duas vezes. A primeira, ter escrito a “Súplica cearense”, que eu adoraria ter assinado.” E, baixando a voz, para evitar ser ouvido pela mulher Helena: “A segunda coisa que eu não tive coragem de fazer e que esse cabra fez foi sair pra tomar um café, dizer à mulher que voltaria em instantes e só ter regressado há pouquinho tempo, três anos depois.”
P.S.2 Aos processadores de plantão, informo. Este diálogo acima foi relatado pelo pesquisador Ricardo Cravo Albin. Eu mesmo não sei se Gordurinha saiu dizendo que ia tomar uma café, comprar um cigarro ou um quilo de carne de charque. Realmente, não sei.
Muito obrigado e, como diria Machado de Assis, boas noites.






on Oct 4th, 2008 at 3:50 pm
< ![CDATA[Será possível que o senhor não perde a oportunidade de macular a imagem do compositor, agora com novos xingamentos, do tipo "gênio de personalidade complexa e humor inteligente"? Depois reclama quando vêm aqui ameçando processá-lo.
Agora, fico me perguntando, se é que o senhor não colocou novamente informações equivocadas no texto, como aquela que dizia claramente ser Gordurinha viúvo: o que terá levado esse homem a passar três anos longe de casa, meu Deus? Li e reli os comentários ao texto anterior e não consigo entender.]]>
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on Oct 5th, 2008 at 9:19 am
< ![CDATA[gostaria de agradecer seu interesse pela obra e vida de meu avo gordurinha gostaria de pedir sua licenca para colocar seus textos em meu blog que fiz em homenagem ao meu avo.vovo saiu de casa sim , mas nao de minha avo , mas da senhora que ele foi morar quando largou minha vo,eles tiveram dua filhas gemeas que sao minhas tias,que minha mae so reencontrou agora ,quase 40 anos depois de sua morte.]]>
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on Oct 5th, 2008 at 2:05 pm
< ![CDATA[Pouco (re)conhecido aqui, imaginem no exterior. Tivesse o Gordura um décimo da fama de Sérgio Mendes na Califórnia, por exemplo, o grande Carlos Santana não teria mandado uma rumba pa nóis com a embalagem de Samba pa Ti.
E mais não falo sobre o assunto.]]>
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on Oct 6th, 2008 at 1:31 pm
< ![CDATA[Francis, o Elvis, por favor, esclareça um fato aqui enquanto Fatinha está ligando pra Hilton e não quer me responder. Esse Gordurinha tem alguma coisa a ver (ou a reaver) com a família Vieira Lima?]]>
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on Oct 7th, 2008 at 6:48 pm
< ![CDATA[Venho aqui externar meu protesto contra o ingrato povo soteropolitano, que não elegeu seu miniprefeito, ignorando décadas e décadas de excelentes serviços prestados por seu avô, o precocemente falecido Antonio Carlos Mussum. Tenho dito.]]>
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