As primeiras manifestações do Dia da Consciência Negra no Brasil começaram no início da década de 70 do século passado, mais precisamente em 1971, em Porto Alegre. Porém, faz bem menos tempo, coisa de 10, 15 anos, que o 20 de Novembro ganhou a luta simbólica entre os afrodescendentes, escanteando o tradicional 13 de Maio. (Pessoalmente, por outras questões afetivas, gosto muito desta última data).
Noves fora minhas preferências, o fato é que o desprestígio da Princesa Isabel acabou levando também ao esquecimento o poeta Castro Alves. Na longínqua aurora da minha vida, na minha infância querida que os anos não trazem mais, esta data era sinônimo de Castro Alves. Atualmente, tudo mudou. Agora mesmo, já passamos da metade do antigo mês abolicionista - e não ouvi nada do referido. Sim, ouvi, pois suas poesias não são para serem lidas, e sim escutadas. O irônico é que quem contribuiu para este silêncio foi exatamente outro poeta, o gaúcho Oliveira Silveira. É dele a idéia das celebrações no 20 de Novembro em Pindorama.
Esta é mais uma ironia envolvendo aquele que pertencia à Escola do Morrer Cedo, conforme a bela definição de Carlos Drummond. Há outras, muitas outras e muito mais trágicas. E não falo aqui do tiro que ele deu no próprio pé numa desastrada caçada, nem daquele outro tiro que saiu culatra, quando tentou domar a menina Eugênia Câmara, mulher que possuía três venenos letais: beleza, experiência e, digamos assim, mente aberta.
O que quero tratar aqui é da trágica ironia revelada pelo recenseamento de 1855. Óbvio que a qualificada audiência do Ingresia conhece este referido censo de cor e salteado, mas só agora este desinformado repórter ficou sabendo que o pai de Castro Alves, Dr. Antônio José Alves, possuía oito escravos para o serviço doméstico.
Alguns desavisados poderão argumentar que isto era comum naquela época. Não era - pelos menos para os médicos que residiam na Freguesia do Passo. Os homens de branco daquela localidade não tinham grandes posses que lhes permitissem este desfrute. E antes que alguém ache que é mais uma culhuda minha, digo logo o nome do santo livro e da autora que descobriu o milagre: Anna Amélia Vieira Nascimento, Dez freguesias da cidade do Salvador - Aspectos sociais e urbanos do século XIX. (A informação sobre a família do poeta que habitava no nº 37 da Rua do Passo está na página 146).
Os fantasmas da escravidão, porém, não perseguiram o poeta somente na sua tumultuada existência. Segundo informa o embaixador Alberto da Costa e Silva em “Castro Alves, um poeta sempre jovem”, estes espectros nunca deixaram o autor de Navio Negreiro descansar em paz. Durante várias décadas, seus restos mortais repousaram (repousaram é forma de dizer) no jazigo de um dos maiores traficantes de escravos, o português Francisco Lopes Guimarães, que foi casado com dona Clélia Brasília, que, posteriormente, foi madrasta do poeta.
Depois de me raciocinar todo, sobrou a seguinte questão: como é possível que alguém que conviveu neste ambiente tenha se rebelado de forma tão aguerrida contra a escravatura ?
Um amigo, metido a conhecer psicologia e outras coisas exóticas, não acha nada demais. Ele me garantiu que Lacan explica tudo isso. Aí, porém, não me meto. É conversa de branco - e eu sou um homem de cor.






on May 16th, 2008 at 1:39 pm
< ![CDATA[Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
Navio Negreiro é duca. uma pena pouca gente conhecer esse poema hj em dia.]]>
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on May 16th, 2008 at 1:39 pm
< ![CDATA[e eu digo - brasileiro ou tem o pé na senzala ou na sinagoga. ou os dois.]]>
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on May 16th, 2008 at 5:30 pm
< ![CDATA[oi seu françuel, sempre bom ler suas análises. Abraço, c.]]>
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on May 16th, 2008 at 10:11 pm
< ![CDATA[Franciel, o que será de Soterópolis sem os acarajés de Dinha?]]>
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on May 17th, 2008 at 2:05 am
< ![CDATA[O senhor é um homem de cor? E o IBGE já oficializou o amarelo como uma das cores de pele dos brasileiros, foi?
Em tempo: o senhor, enquanto agente baiano infiltrado, quis secar o glorioso rubro-negro da Ilha do Retiro e se deu mal. Por favor, repita o expediente nas próximas quartas, antes dos jogos contra o Vasco.]]>
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on May 17th, 2008 at 5:18 pm
< ![CDATA[É um portento! Nem o uso de palavras de baixa extração, como culhuda, maculam a nobreza da pena. E notem a pertinência e elegância do apóstrofo. Evoé Franciel, herdeiro da tez e do talento dos varões mulatos.]]>
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on May 17th, 2008 at 6:00 pm
< ![CDATA[ERRAMOS: Só agora percebi que o senhor estava falando do jogo Sport x Vitória. É que contra times pequenos a gente não considera jogo. Uh, uh. Sacaneei.]]>
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on May 19th, 2008 at 2:56 pm
< ![CDATA[fiquei curioso:
o que o coveiro falou pro outro quando enterravam Dinha do acarajé????
Segundo apurou um amigo meu, um coveiro falou assim para o outro: “VATAPÁ”. ]]>
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on May 19th, 2008 at 5:06 pm
< ![CDATA[Caramba, acabei de ler os últimos posts e confesso que fui ao aurélio, pelo menos, umas três vezes. Ingresia é cultura!!! Agora, sério, tô ficando viciada nisso aqui. É muito divertido o jeito ironicamente rebuscado (ou seria rebuscadamente irônico?) como você escreve, Franciel! Bjs!
Silvana, conforme combinado, a verba pelos imerecidos elogios já foi depositada em sua conta corrente. Deus lhe pague. ]]>
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on May 20th, 2008 at 2:55 pm
< ![CDATA["Não sabes, criança, estou louco de amores ...
Prendi meus afetos, formosa pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas ?!
Não rias. Prendi-me num laço de fita"
Trecho do Poema O Laço de Fita, de Castro Alves
O poeta dos escravos também era brocador, e "laços de fita" se romperam no no "bordão" do "bardo"]]>
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on May 20th, 2008 at 6:16 pm
< ![CDATA[Franciel, meu velho, você viu a coragem de Claudinho entrevistando o general Leônidas no Terra Magazine? Se esse menino fosse rapazinho em 1968, não sei não, acho que hoje ele estaria vivendo às custas da viúva, vizinho de Ziraldo e Cony lá pros lados do Leblon, ou então tomando Rum com Pedro Juan Gutiérrez numa espelunca cubana. Do lado de Dilma, não, aí já seria demais. Danado, o nosso rapaz.]]>
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on May 21st, 2008 at 6:06 pm
< ![CDATA[Caro mulato letrado,
os entendidos em história dizem que é necessário avaliar um momento no seu contexto, tentar entender as pessoas junto com seu tempo. Isto é sucficente para da rim a sua angústia? Outra coisa, filho de rico também não defendia o tal proletariado naqueles tempos que comuna tava na moda? Quer um exemplo atual? Este cineasta, irritantemente inteligente, bonito e rico, dono de banco dono daquela revista Piauí? Exemplos não faltam.
Meu velho, sem querer polemizar, pois não é de meu feitio de homem pacífico, acho que o caso de menino Frederico é um tantinho assim singular. Quando os abastados defendiam os comuns era, como você bem disse, uma moda. No caso do referido, nem tanto assim.
Mas, este textículo não tem prentensão de porra de nada. Fiz apenas porque perdi um tempo da zorra lendo um livro chato pracaralho, o tal das Dez Freguesias, e procurei um serventia para ele, tentando justificar que a leitura não havia sido inútil. Só isso. ]]>
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