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FELIZ DOIS MIL E OUTROS

Hã? Como assim? Vocês não sacam o conceito de alteridade em Emmanuel Lévinas? Que vergonha, meu deus! E pensar que cristo gastou não sei quantos litros de sangue pela redenção deste tipo de gente. Só não os expulso deste sagrado e ingresiástico templo porque a baixa audiência impossibilita o desfrute de luxos desta espécie.

Então, avante.

Esqueçam o que vocês não leram. Toda a teoria do referido pensador franco-lituano pode ser encontrada em Cinemas, Aspirinas e Urubus. O filme, que o Canal Brasil está exibindo neste início de 2008, é uma aula sobre alteridade - coisa pra mais de meio metro de reflexão. Não se iludam, porém, pensando em acusar a obra de sociológica, antropológica ou quaisquer palavrões desta estirpe. É cinema. E belo. “Tem uns achados visuais bem bacanas”, diria um crítico xibungo (desculpem a redundância). A cena em que os protagonistas Johann (Peter Ketnath) e Ranulpho (João Miguel) trocam olhares com Jovelina (Hermila Guedes) é de um encantamento jamais visto nas telas de Pindorama.

Porém, noves fora os virtuosismos estéticos, a história do alemão Johann e do sertanejo Ranulpho traz uma arrebatadora lição da radical ética levinasiana, de reconhecimento e, mais que isso, de responsabilidade pelo Outro. Eles nunca se viram, mas (quase) sempre se respeitaram. O diretor Marcelo Gomes mostra que é possível diminuir as distâncias: “A seca do Sertão em algum momento lembra a neve da Alemanha”, disse numa entrevista à época do lançamento. Aliás, outro fator que une os personagens é a fuga de duas perversas besta-feras: um corre do nazismo; o outro, da seca. E ao fugir se encontram.

Ironicamente, o filme começa com uma música que marca um desencontro: Serra da Boa Esperança. Esta canção, composta por Lamartine Babo, é conseqüência de uma troca de correspondência com uma fã apaixonada, a mineira Nair Pimenta de Oliveira. Quando o compositor vai a Minas Gerais, porém, descobre que o autor das cartas era o tio da menina, o dentista Carlos Alves Neto.

Mas, derivo.

O que queria lembrar é que à referida obra foram concedidos inúmeros prêmios nos festivais por onde peregrinou. O maior reconhecimento, contudo, veio na tarde de 16 de janeiro de 2007, quando, pela primeira vez, a Academia divulgou uma pré-lista e rejeitou o filme de Marcelo Gomes. E, ao excluí-lo da seleção hollywoodianesca, eles deram um certificado de qualidade à película. Os americanos não conseguem enxergar o Outro - senão como uma presença (e fatalidade) infernal. Falta, aos ianques, generosidade no olhar para perceber algo além do próprio umbigo.

E, voltando ao nosso umbigo, é imperativo registrar que este 2008 em Pindorama tem grande possibilidade de não ser igual ao ano que passou. Nesta época em que impera a retórica da violência, da intolerância, do acirramento de ânimos (às vezes, falsamente radicais), é um alívio ver um filme que propõe o acolhimento do diferente sendo destaque na TV Brasileira.

Talvez não seja como uma aspirina do filme, o fim de todos os males, porém, com certeza, é um bom começo.

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18 Comentários on “FELIZ DOIS MIL E OUTROS”

  1. #1
    on Jan 3rd, 2008 at 3:40 pm

    < ![CDATA[O filme é ótimo. uma das coisas mais legais é que o alemão acabou se 'abrasileirando'.
    e a cena da frieira na zona é uma das melhores que já vi no cine brazuca.]]>

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  2. #2
    on Jan 3rd, 2008 at 5:58 pm

    < ![CDATA["Os americanos não conseguem enxergar o Outro - senão como uma presença (e fatalidade) infernal. Falta, aos ianques, generosidade no olhar para perceber algo além do próprio umbigo."

    Meu caro, voce ate' que escreve bem, mas esse paragrafo reproduz uma das asneiras que um certo tipo de esquerda mal-informada e mal-viajada esta' acostumada a propagar no Brasil. O povo americano (a que voce se refere), nao e' a Academia. A Academia, nao representa o povo americano. O povo americano e' uma coisa, o governo americano e' outra totalmente diferente.
    A Academia tem exemplos e mais exemplos onde alteridade pode ter sido usado como argumento de selecao. Nao vi "Cinema" (ainda) mas tenho certeza que o motivo de exclusao listado por voce, existe apenas na sua cabecinha, e da pouco generosa esquerda citada.

    É vero. Confesso que generalizei. Nem toda a população dos EUA age da forma que falei. Existem 14 pessoas lá que sabem que a capital da Colômbia não é La paz. ]]>

    [Reply]

  3. #3
    on Jan 3rd, 2008 at 7:02 pm

    < ![CDATA[Cineasta brasileiro é mendigo de dinheiro público.
    Se a petrobrás cortar o financiamento de filmes, acabou a produção.]]>

    [Reply]

  4. #4
    on Jan 4th, 2008 at 10:29 am

    < ![CDATA[belezura de filme.]]>

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  5. #5
    on Jan 4th, 2008 at 11:41 am

    < ![CDATA[Nobre escriba,
    felicito vossa senhoria e família pela passagem de mais um ano, primeiramente, e lanço uma questão: se o Governo do Estado da Bahia pretende privatizar o abominável Centro de Convenções, para que investir algo perto de SEIS MILHÕES DE REAIS no citado equipamento?
    A justificativa, se existe alguma, seria engordar o fundo de campanha de um secretario famoso pelo fígado totalflex?]]>

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  6. #6
    on Jan 4th, 2008 at 7:32 pm

    < ![CDATA[E aí, meu velho, como andam os triglicérides e as bilirrubinas depois dos bombardeamentos de rabanadas e das rajadas de farofas com seus miúdos amestrados?
    A turma de Pernambuco realmente sabe das coisas quando o negócio é cinema. Desde O Baile Perfumado - que eu tive a sorte de acompanhar de perto, já que ele foi filmado quase todo aqui perto -, que eles botam pra quebrar.
    E o mais legal é que a meninada de lá participa pra valer das atividades que rolam nas livrarias (cursos, palestras, etc) e dos festivais e mostras que acontecem no Centro de Convenções. Muito bacana.
    Houve um tempo que aqui em Paulo Afonso tinham 5 salas de cinema. O programa favorito do pessoal das cidades vizinhas era pegar a estrada pra ir curtir as últimas novidades na telona.
    Lembro de uma vez em que eu fui ver a estréia de A Paixão de Cristo. A sala completamente lotada, as beatas encantadas com o que viam na tela, tudo normal, até que o operador colocou o último rolo rodando ao contrário e Jesus, que já estava quase pregado na cruz, começou a dar ré numa velocidade tal, que quase voltou pra manjedoura. Uma verdadeira zona.
    A meninada morrendo de rir e algumas beatas partindo pra cabine pra tomar satisfação com o coitado do operador.
    Mas as coisas mudam, seu Franciel. Hoje, nos locais em que a gente comprava ingresso para ver Cristo na tela, neguinho anda pagando caríssimo achando que vai vê-lo ao vivo. Aleluia, irmão!]]>

    [Reply]

  7. #7
    on Jan 4th, 2008 at 8:48 pm

    < ![CDATA[Também gostei desse filme. Um bom filme é uma ótima forma de começar o ano.

    Um bom ano!]]>

    [Reply]

  8. #8
    on Jan 5th, 2008 at 12:21 am

    < ![CDATA[Belo texto, velho. Assino embaixo. Um abraço.]]>

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  9. #9
    on Jan 5th, 2008 at 12:55 am

    < ![CDATA["Existem 14 pessoas lá que sabem que a capital da Colômbia não é La paz."

    Vero, mas isso nao e' falta de alteridade, mas sistema de ensino. No entanto, existem milhoes de pessoas la' que sabem como tocar bem um negocio 'a frente, que tem uma formacao tecnica e cultural invejavel, que nao esperam as tetas do governo para sobreviver, ou mudar o estado de coisas, e que vao 'a luta sem ficar choraminguando.]]>

    [Reply]

  10. #10
    on Jan 5th, 2008 at 2:02 am

    < ![CDATA[Franci,

    Tb acho Cinema, Aspirinas e Urubus um filme encantadoramente belo em sua singeleza... Mas aproveito a oportunidade para falar de números: Rodamos menos de cem longas e, no mesmo pacote rolou Cinema, Aspirinas; Céu de Suely e Cidade Baixa... Só pra ficar na ficção...

    A média do custo-qualidade do cinema brasileiro é altíssima, ao invés do que muitos dizem. Aí é duro ouvir essa ladainha de que não se deve colocar verba pública no cinema.

    Se no mundo inteiro a "sétima arte" é subsidiada - justamente por ser uma expressão artística caríssima e inviável sem a força da indústria - por que diabos só o Brasil não pode pagar pra ter cinema? Deve-se abrir mão dessa prerrogativa, que é uma reserva da própria essência e soberania cultural dos povos?

    Comida não é só a que vai no prato, mas a que alimenta o espírito tb... Claro que o país se ressente de inúmeras urgências e necessidades, mas o cinema não merece nem uma milésima casa decimal de investimento? E no futuro, quando quisermos mostrar aos filhos e netos imagens do Brasil de Hoje e a cosmovisão de nossa época, o que faremos? Vamos mostrar X-Men, Titanic e Identidade Bourne?

    Corte o subsídio do cinema francês (percentagem direta tirada do ingresso vendido a cada filme estrangeiro) e vamos ver se o país consegue rodar sequer meia dúzia de filmes por ano...

    Faça o mesmo com o cinema italiano que anda caindo das pernas ou com o cinema alemão, ou até mesmo com o chamado "cinema independente americano". Nenhum deles sobrevive sem aporte de verbas públicas, porque enfrentam uma indústria hegemônica e cruel.

    Triste verificar como existe tanta cegueira quando o assunto é cultura.]]>

    [Reply]

  11. #11
    on Jan 5th, 2008 at 11:01 am

    < ![CDATA[Bocão rompe o contrato com a TV Aratu que iria até 2009 e comenta-se que houve negociação entre as partes. Mas, o assunto ainda é nebuloso na medida em que a Aratu veiculou um provável "sistema de extorção" no último dia 21 envolvendo Zé Eduardo, através do jornalista Uziel Bueno, que deverá ser o substituto de Bocão no canal 4.]]>

    [Reply]

  12. #12
    on Jan 7th, 2008 at 5:34 pm

    < ![CDATA[O Brasil é uma país muito curioso. O dinheiro público, via Petrobrás ou via renúncia fiscal das lei de incentivo, paga TODA a produção dos filmes e a população ainda paga ingresso para ver a obra. E ainda tem quem defenda o subsídio público, evidentemente, para que o dinheiro da bilheteria se converta em champagne, alcalóides, apartamentos, viagens para festivais europeus e festas para a crítica deslumbrada considerar tudo de altíssima qualidade.
    Aliás, o termo obra é bem apropriado para o que alguns "cineastas" produzem.
    Neste momento imagino que as imagens do brasil de hoje e a cosmovisão de nossa época estejam bem representadas na "obra cinematográfica" de domingos oliveira, daniel filho, julio bressane, rosemberg, pola ribeiro, araripe e outras malas.]]>

    [Reply]

  13. #13
    on Jan 7th, 2008 at 8:03 pm

    < ![CDATA[Uma mala nao se torna mala da noite para o dia. Um cineasta mala se faz com muitas jornadas e incentivos fiscais. Ate' o ponto onde o cara se dá conta que talento pouco é bobagem, pois critico nesta terra serve é pra lamber botas. E não dá mais pra largar a "profissão" e assumir aquele empreguinho arranjado a custo na administracão municipal. Entao a mala vira medalhão da cultura local, pois quem estiver fora da panela não come pirão!]]>

    [Reply]

  14. #14
    on Jan 8th, 2008 at 12:07 pm

    < ![CDATA[Um belo exmplo de uso do dinheiro público:

    Os gastos da Ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, com o seu cartão corporativo do Governo Federal chegaram a R$ 171,5 mil em 2007. O que teria comprado a ministra no dutty free, Dufry Brasil, em 29 de outubro de 2007, no valor de R$ 461,16, para ajudar a acabar com as desigualdades em nosso país?]]>

    [Reply]

  15. #15
    on Jan 8th, 2008 at 1:41 pm

    < ![CDATA[Em todo o mundo, somente a receita direta do público não financia a produção e distribuição de filmes. Fato que só admite contestação quando se fala em 'indústria' de cinema, e, nesse caso, é achar que titanic no iceberg duzoutro é refresco. No rés-do-chão, se não houver subvenção estatal, o negócio não se sustenta. É simples.]]>

    [Reply]

  16. #16
    on Jan 8th, 2008 at 2:20 pm

    < ![CDATA[Na moral, achei Cinema, Aspirinas e Urubus chato para caralho.

    Gijó,
    e você sabe os porquês? Ou apenas é chato porque é chato? ]]>

    [Reply]

  17. #17
    on Jan 8th, 2008 at 8:11 pm

    < ![CDATA[Bom, meu chatômetro para filmes está relacionado ao tempo que eu levo para começar a me coçar desde que começa a exibição. Pelos meus cálculos, nesse caso, aos 20 minutos eu já estava olhando para o relógio. Na verdade, fora a atuação dos dois protagonistas, o filme não disse a que veio. Mas como agora qualquer coisa que saia de Pernambuco ganha automaticamente status de obra de arte, gracas aos paulistas alternativos que se encantam com o "exotismo" do Nordeste, tome-lhe Cordel do Fogo Encantado, Amarelo Manga, Mauro e Quitéria e Lia de Itamaracá. Claro que o habitante de um Estado que apresenta ao mundo Chiclete com Banana e Durval Lélys não tem muita moral para falar. Mas realmente acho que somos muito condescendentes com tudo o que vem de cima. Até porque, no caso dos homens, celebrar o pop folclórico é uma ótima maneira de agradar às universitárias. Aliás, vendo por esse lado, estou quase convencido de que Cinema, Aspirinas e Urubus é o melhor produto da cinematografia brasileira. Por sinal, jovens universitárias interessadas em discutir o assunto, vamos marcar para ver Árido Movie em DVD. hehehe.

    Gijó, pois eu só assisto a filmes me coçando. É uma beleza.

    Agora, sério. Você quase tem razão quando diz “que agora qualquer coisa que saia de Pernambuco ganha automaticamente status de obra de arte, gracas aos paulistas alternativos que se encantam com o “exotismo” do Nordeste, tome-lhe Cordel do Fogo Encantado, Amarelo Manga, Mauro e Quitéria e Lia de Itamaracá“.

    Isto foi verdade há algum tempo. Creio que esta moda já passou.

    Cinema, Aspirinas e Urubus não tem a ver com isso, creio eu. É apenas cinema muito bem feito. Ao contrário, por exemplo, de Amarelo Manga, que é uma bomba, cheio de chiclês e pretensamente “visceral”.

    Quanto à música, com o auxílio luxuoso de João Gilberto, Gil, Elomar, Novos Baianos e tantos outros, tenho a menor inveja de Pernambuco. Nem mesmo em música carnavalesca, pois aqui conto com Moraes e Armandinho. ]]>

    [Reply]

  18. #18
    on Jan 10th, 2008 at 8:44 am

    < ![CDATA[Sem contar com Dorival e Cascadura! Tchans! (Não o das Sheillas)...]]>

    [Reply]

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