Nossa vocação para o lamento dura menos do que um suspiro. Quem, nesta província, ousa indignar-se por mais tempo é logo tachado de impertinente e outros adjetivos menos nobres. Não há como contrariar este império esquizofrênico da felicidade
Todos assim procedem: só a Ingresia desta lei da natureza baiana deveria ter isenção? Ora, mas, quá! E tome-lhe circo, ou melhor, samba, para ludibriar a dor. Afinal, depois da tragédia na Fonte do Futebol, mais que nunca é preciso cantar e alegrar a cidade.
Então, motô, toca o bonde pra Praça Municipal. É hora de comemorarmos a 36ª edição do Dia do Samba, evento que faz parte de meu calendário afetivo de festividades.
E nem bem boto os pés no maltratado Centro Histórico e já sou surpreendido com uma impressionante descoberta: além dos gloriosos e incompreensíveis arabescos sonoros (copiraite João Ubaldo), o ministro Gilberto Gil consegue articular duas frases com algum sentido. Questionado sobre o futuro do samba, ele largou a seguinte: “É o mesmo do país. O samba vai aonde o Brasil for. Se conseguirmos construir um país decente, teremos um samba idem”.
(O ministro pode entender de Samba, e principalmente de Dia do Samba. Inclusive, participou da primeira edição do evento, em 1972, logo que voltou do exílio. Mas, da vocação do Brasil ele conhece pouco).
Ao vincular o destino de Pindorama ao de nosso ritmo ancestral, Gil fez a mais otimista e equivocada profissão de fé no Brasil. O samba e o destino da nação, ministro, estão dissociados. Nossa música popular, apesar de todas as notas dissonantes, ainda continua muito melhor do que o país. Basta um resumo das atrações do último dia 2 de dezembro para confirmar esta teoria: Além do referido ministro, Luiz Melodia, Dona Ivone Lara, Walmir Lima, Walter Alfaiate, Gerônimo, Wilson das Neves, Firmino de Itapuã, Nelson Rufino, Walter Queiroz entre outros maizomenos cotados.
É uma pena, portanto, que exista um abismo entre o otimismo do ministro e a nossa realidade. A qualidade do samba, repito, nunca dita o ritmo da nação baiana. E, mesmo sob o efeito de diversos cravinhos e outras substâncias não recomendadas pela Carta Magna, foi fácil, uma vez mais, constatar tal descompasso.
Não bastasse o tradicional descaso governamental com a infra-estrutura do evento, este ano eles nos presentearam com um enorme camarote que ocupou toda a frente do Palácio Rio Branco. Poizé. Pode vibrar torcida brasileira: a perversa camarotização da cidade foi democratizada e não discrimina mais nenhum evento - nem mesmo o popular Dia do Samba.
É lógico que as madames e os amigos do poder - com suas alegrias plastificadas que logo viram pó -, pouco se importavam se a multidão espremida na praça não contava com um mísero sanitário químico.
Eles sabem que o povo sempre dança.
Salve a Bahia, Sinhô.






on Dec 4th, 2007 at 3:34 pm
< ![CDATA[Há!]]>
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on Dec 4th, 2007 at 3:59 pm
< ![CDATA[Não me diga?
A novidade porreta é o camarote patrocinado pela petrobrás e com apoio da seCÚlt, do FIZcultura e de outras tetas municipais, estaduais e federais.
Esta é a terra de todos nó$$.]]>
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on Dec 4th, 2007 at 6:12 pm
< ![CDATA[Ô capadócio! A nacão dita o rumo do samba e não o contrário. Entenda antes de publicar suas asneiras. Quanto ao camarote, realmente não és benvindo.]]>
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on Dec 4th, 2007 at 8:32 pm
< ![CDATA[O povo sempre dança. Literalmente...]]>
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on Dec 4th, 2007 at 9:49 pm
< ![CDATA[E o governo de todos nó$$ vai criar DUZENTOS novos cargos.
Vai ser socialista assim em caracas!]]>
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on Dec 5th, 2007 at 9:40 am
< ![CDATA[Sêo Françuel,
Pena que esse filé do samba baiano não tenha espaço nenhum em nenhum local e também não seja lembrado ou reverenciado. Só em uma "data especial" como esta.
Aqui, só tem espaço é lembrando, vangloriado e cortejado o pagode, que tem péssima qualidade e as músicas descambam para a apelação sexual. Só dão valor a isso.
Pode?]]>
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on Dec 5th, 2007 at 10:33 am
< ![CDATA[E dança gostoso, no ritmo que o patrão manda, sem questionamentos. Até porque, Francis, como vc mesmo disse, quem questiona muito por aqui logo é tachado de problemático, esquisito, chato, impertinente, inconveniente...]]>
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on Dec 5th, 2007 at 2:29 pm
< ![CDATA[ele dança, eu danço, ele dança, eu danço.]]>
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on Dec 5th, 2007 at 10:26 pm
< ![CDATA[Aqui da minha ilha particular, me pergunto: camarote não é coisa das zelite??
A revolução foi só uma troca de zelite, a oligarquia pela sindical. E o povo??
Só no miudinho!!!]]>
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on Dec 6th, 2007 at 6:47 am
< ![CDATA[Estranho Franciel,
Sou capaz de apostar que você não gosta do Chicrete, não é fã da Ivete e detesta dançar Arrocha. Não deve sequer ter saudades de ACM.
Mermão: aqui é a Bahia, terra da alegria e da magia. Seja feliz e releve esses pequenos probleminhas -existentes em qualquer lugar do mundo, a propósito.
O estádio caiu, o túnel vai cair, a orla virou favela? quequetem?? o que importa é o pôr do sol no farol, a vista magnífica do Cristo em direção ao Farol e as águas quentes e azuis (às vezes até vermelhas, não é o máximo?) da Baía de Todos os Santos.
Axé, implicante!]]>
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on Dec 6th, 2007 at 10:31 am
< ![CDATA[Paulo,
furto o Fanho e lhe garanto: amo tanto a Bahia e de tanto amar acho que ela é bonita.
E é exatamente por amar tanto, mais até do que ela às vezes merece, que implico.
Agora, não considero a perversa camarotização da cidade apenas um “pequeno probleminha”. Isso não.
abraços. ]]>
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on Dec 6th, 2007 at 11:47 am
< ![CDATA[Franciel, meu bom, Gil é assim mesmo. Você precisa ver uma fita com ele tomando banho de sunguinha no cânion do São Francisco no tempo que a ONG Onda Azul fazia uns 10 encontros por ano por aqui (onde será que anda aquele pessoal tão descolado? Saudades!), sobre a "reutilização e aproveitamento dos seus potenciais turisticos e hídricos enquanto o rio é Francisco", ou qualquer coisa que o valha.
É bem provável que agora eles estejam envolvidos com a extinção do Boto Cor-de-Rosa (soube que Bruna Lombardi até hoje pede pra Ricelli fazer aquele biquinho que ele fazia no filme) e com a salvação de Beto Barbosa, que depois do "adoçica, meu amor, adoçica!", nunca mais participou do programa do Gugu.]]>
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on Dec 6th, 2007 at 5:48 pm
< ![CDATA["amo tanto a Bahia e de tanto amar acho que ela é bonita."
Ui, ui, Franciel, me rupiei toda! Benvindo 'a baitolagem baiana "a la BBB" (bicha-de-bolsa-e-de-bigode). Passa lá no Vila, quem sabe a gente não arruma um papel de Santa pro'ce.]]>
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on Dec 6th, 2007 at 5:51 pm
< ![CDATA[Salve Marcelo Nova, que já denunciava a proliferação inexplicável de tantos pobres felizes - nós mesmos! Tudo sob controle e nada de novo debaixo do pôr do sol da Praça Municipal...
Franciel, O ingresia é mesmo que nem carro de quarta-feira, que sobe e desce ladeira. Esse blog é uma massagem no calcanhar do pensamento cotidiano da Bahia contemporânea!
Meu velho, aquele é o carro. Sobe até as ladeiras de Olinda.]]>
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