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Um adeus à Víbora*

Oficialmente, Joel Silveira morreu na manhã de anteontem, às 8h, dormindo. Mas, para ser fiel aos fatos, em verdade vos digo: os jornais, há séculos, já haviam fechado os olhos para ele, assassinando-o com um indecente esquecimento – o que diz muito sobre a qualidade atual dos meios de comunicação de Pindorama.

E nem poderia ser diferente. Existia uma incompatibilidade de gênios. A irresistível vocação que os periódicos hoje têm de se transformar em embrulho de peixe não combina com o apreço que o intimorato e culto sergipano devotava à reportagem bem apurada e, principalmente, bem escrita. Definitivamente, ele não pertencia mais a estes tempos modernos do fait divers, da notícia aligeirada e desimportante.

Joel era de outra época, de um tempo da delicadeza, em que os jornalistas ainda não possuíam tanta ojeriza à literatura. Por isso, seus textos não conheciam o caminho do açougue. Iam diretos para a galeria dos escritos líricos e informativos. (Sim, deve existir esta galeria. Deus não pode ser tão injusto). A clássica reportagem sobre o comportamento da grã-finagem paulista, escrita em 1943 para a Revista Diretrizes, deve ser lida pelos jovens jornalistas, e não só eles, no genuflexório, de joelhos. E os que ainda desconhecem seus relatos sobre a 2ª Guerra Mundial também merecem pagar boa penitência.

Por falar em pecados, vale dizer que a Víbora, apelido dado ao repórter por Assis Chateaubriand, nunca foi santa. E pecava muito. Ouça esta heresia: “Guimarães Rosa eu acho que é truque. Ele é o Joyce caboclo”. E mais esta: “Dia destes vi o intragável João Gilberto assoviando e sussurrando na televisão. Tudo nele era rachadura, infiltração e goteira”.

Mesmo nestes tropeços, não há como negar o humor inteligente do menino Joel. Noves fora estes e outros equívocos, ele tem crédito. Muito crédito. Seus erros eram veniais, nunca venais. Em relação a, por exemplo, Guimarães Rosa, pecou porque estava convicto de que no país existiram apenas dois escritores: Machado de Assis e Graciliano Ramos - o que, convenhamos, não está muito longe da verdade.

A seu favor, registre-se ainda que, apesar de conviver no meio dos poderosos, ele sempre esteve, de forma terna, irônica e combativa, ao lado dos desvalidos. Além disso, a pena que por (des) ventura cometeu alguma injustiça, era a mesma que nos deixou ferinas e brilhantes tiradas.

Um exemplo? Recebam: “Não quero parecer ranzinza, mas alguém pode me dizer para que servem os alpinistas? Por que aqueles idiotas não pegam um avião para olhar as montanhas do alto, em vez de tentar a subida ridiculamente amarrados em cordas? Eu jamais compraria um carro de um alpinista. Não se pode confiar em seres que não têm senso de ridículo“.

Outra característica marcante: gostava de uma boa picuinha. Mesmo avesso à Academia de Letras, ao fardão, uma vez candidatou-se a imortal só para aporrinhar Zélia Gattai, em quem não conseguia enxergar qualidades literárias.

Assim foi Joel, um combatente do que considerava iniqüidades. E o Brasil não sentirá sua falta. Afinal, quando morre alguém da sua estirpe, os medíocres da nação e a nação de medíocres suspiram aliviados.

* Estes rabiscos foram publicados na edição de sábado do Jornal A Tarde. Reproduzo-os aqui porque sei que ninguém lê o referido Vespertino.

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7 Comments on “Um adeus à Víbora*”

  1. #1
    on Aug 20th, 2007 at 5:25 pm

    < ![CDATA[tem uns dois anos q vi uma entrevista de joel silveira num canal aberto desses e a víbora ESCULHAMBOU com Lulla.
    agora q morreu virou herói da petralhada q nem nelson rodrigues (vide a apropriação da máxima rodrigueana pelos lullo-petistas de q o maraca vaia até minuto de silêncio como desculpa para a grande vaia do maracanã).
    joel silveira esculhambou com Lulla e depois cansado é o cidadão da classe média q não aguenta nem mais ouvir a voz do boris yeltsin de garahuns]]>

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  2. #2
    on Aug 20th, 2007 at 6:44 pm

    < ![CDATA[Franci,

    Joel Silveira está também na minha galeria dos heróis. Uma galeria feita de “heróis imperfeitos”, porq ue detesto essa gente ruim, que é boa em tudo que faz e que nunca erra!

    Tem uma que ele contava, que nunca esqueci. Certa vez, quase morreu durante um bombardeio, na Segunda Guerra Mundial. Chegou a se ferir e teve dificuldade para escrever…

    Recebeu uma séria repreenda do chefe: “Não vai inventar de morrer, Joel! Jornalista não é pra morrer, é pra mandar notícia!”

    Pra mim, até hoje, uma ótima definição do que devem fazer os periodistas… Seguida à risca, não teríamos tantos “artistas”, “literatos”, “pavões de primeira hora” e outros “morrentes” nos impressos de embrulhar peixe.]]>

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  3. #3
    on Aug 20th, 2007 at 8:39 pm

    < ![CDATA[Seo Françuel. Que diabo é isso. Passo uns dias fora (fui buscar um macacão novo na Coral) e, quando volto, encontro o Ingresia invadido pelas viúvas de ACM?
    A burguesia sotorepolitana não frequenta o Ingresia, mas manda seus porta vozes darem o recado. E olhe que de dar recado eles entendem, pois passaram a vida inteira como moleques (também compravam tempeiro).
    No mais, como um cara que passou mais de 20 anos entre a EBC e a Facom, também tenho saudades do maior repórter brasileiro de todos os tempos. Será que ele aprendeu tudo aquilo com o irmão, Junot?]]>

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  4. #4
    on Aug 20th, 2007 at 11:19 pm

    < ![CDATA[Franciel,

    Volta logo pro A Tarde…]]>

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  5. #5
    on Aug 21st, 2007 at 4:09 pm

    < ![CDATA[fidel morreu e eu não sabia?]]>

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  6. #6
    on Aug 21st, 2007 at 5:10 pm

    < ![CDATA[cascavel aparelhada usa home care. Desliga o aparelho.]]>

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  7. #7
    on Aug 24th, 2007 at 11:35 am

    < ![CDATA[Lula com dois "lê". Porque isso? É pra dizer que Lula é igual a Collor? Supercriativo. E faz efeito. Eu agora tô achando que Lulla e Collor são farinha do mesmo saco, só por causa desse brilhante trocadilho. Me parece que a Cascavel Aparelhada, uma cansada cidadã da classe média, representa fidedignamente a classe média. Igualmente a todos os medianos, ela também almeja um dia ser da classe rica e poder ser reaça numa nice, com direito a assinatura da revista veja, aplausos aos proféticos comentários de Arnaldo Jabor, dondoquices, movimentos políticos para "endireitar" o Brasil e tudo que essa turma esperta e espertinha tem direito.]]>

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