Se, como sentenciava o bardo William Burroughs, a linguagem é um vírus, o discurso do alcaide de Soterópolis João Henrique está com infecção generalizada.
E a doença não é uma metáfora.
Ouçam, em negrito, o que ele disse sobre a entrega da Orla Marítima à especulação imobiliária, travestida de liberação do gabarito. Às aspas: “Agora é preciso ter coragem, uma tomada de decisão para algo que devia ter sido feito há 20 anos e para fazer com que as pessoas parem de se indagar por que Salvador é a única cidade do Nordeste que não acordou para o potencial de riqueza de sua Orla“.
Estas 49 palavras do prefeito são muito menos inofensivas do que aparentam. Há, aí, tantas falácias quanto nas propagandas da Bahiatursa para enganar turistas, otários e afins.
Que história é esta, prefeito, de que “é preciso coragem” para se render aos barões da construção civil? Esta ladainha de valente a favor, que durante milênios foi usada por ACM, não cola mais.
É preciso coragem, João, para outras coisas. É preciso coragem para lutar contra os que, nesta bela, besta e maltratada Cidade da Bahia, resistem em abrir mão de seus seculares privilégios. É preciso coragem, João…Aliás, não. Chega de dicas. O senhor sabe muito bem para que é preciso ter coragem.
E outra. Onde é que está escrito que a Orla de Salvador tem que ser igual à das outras capitais na, como é mesmo?, exploração do “potencial de riqueza“? Nécaras. O inverso é o certo. A cidade tem é que preservar o que ela ainda tem de singular. Nada de sombreamento nas praias e outros confortos do progresso. Por que temos que macaquear as miamis da vida?
Aqui mesmo, em Amaralina, em que pesem os canhões na paisagem, é direito inalienável continuar usufruindo desta brisa que nos beija e balança amorosamente. Sim, prefeito, amorosamente. A questão, para além dos argumentos técnicos, é de preservação também do patrimônio afetivo.
Até o outro João, o valentão da canção de Caymmi, que a todos intimidava, sabia que não era preciso dormir pra sonhar “porque não há sonho mais lindo do que sua terra“.
E nesta batalha contra a invasão da Orla não pode faltar o afeto. Só o amor pela cidade poderá barrar esta investida nefasta. E um governo que se pretende democrático e popular tem o dever de interferir a favor do afeto - e não do poder econômico.
A propósito, lembrei-me de outro crime contra os baianos e um de seus maiores patrimônios, o Carnaval, que começou a ser perpetrado em nome da tal modernização.
No início dos anos 90, Lídice da Mata, a quem quero muito bem, era a prefeita de Soterópolis quando caiu no conto do vigário da profissionalização da folia. Na ocasião, até o trajeto da gloriosa Mudança do Garcia eles, os modernizadores, com o aval dela, quiseram alterar, impedindo que a fuzarca desfilasse na passarela do Campo Grande.
O resultado é que hoje, espremidos mais ainda entre cordas e camarotes, estamos em busca do tempo perdido.
Desta vez, porém, assim como a menina Dolores Ibarruri fez no histórico 19 de julho de 1936, bradaremos: Na Orla de Salvador, no Pasarán.






on Aug 16th, 2006 at 11:16 am
< ![CDATA[Doce ilusão, meu bom Franciel. A tendência de loteamento da orla - não apenas soteropolitana, como toda a sua estensão baiana até as fronteiras com o fundo do nosso quintal, Sergipe - é irreversível. Assim como o carnaval deixou de ser dos soteropolitanos, a orla deixará de ser nossa para pertencer tão e somente aos empresários hoteleiros e construtores espanhóis, portugueses, franceses e outros gringos. A burguesia e a classe política local se contentará em vender o que É NOSSO por alguns milhões e saírá da negociata feliz da vida, com os bolsos cheios de dólares e os seus característicos corações e mentes vazios - direto para um resort em Miami. Quanto à nós, só nos restará recolhermo-nos às sombras dos espigões dos ricos e privilegiados. Ou seja, a gente que se lixe - como de costume. É assim que vai ser. Não dou cinco anos para a orla de Salvador ser destruída por esse retardado e sua corjinha familiar. E não é por que ele é retardado, não - a turma das três letrinhas malignas faria a mesma coisa. Estamos entregues aos ladrões, especuladores, escrotos e boçais. Tá faltando é um hezbollah por aqui, isso sim...]]>
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on Aug 16th, 2006 at 11:17 am
< ![CDATA[Errata: "extensão" é com xis.]]>
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on Aug 16th, 2006 at 11:38 am
< ![CDATA[Sêo Françuel,
seu texto tá muito bom, mas concordo com o franchico aí de cima. Vai sonhando, vai.]]>
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on Aug 16th, 2006 at 4:39 pm
< ![CDATA[Boa porra, essa orla de Salvador. Quero mais é que seja devassada. Vamos fuder essa porra logo, e avançar mais e mais rumo a Sergipe, que é o que sempre fizemos. Nada de revitalizar, vamos construir mais adiante, mais ao norte. Fudeu a Barra?, constroi na Pituba. Fudeu a Pituba, constroi em Piatã. Assim sempre foi desde a Ribeira, porque agora vai ser diferente? O resto é lero de miseravão sem grana ou pistolão. A cidade é o cancer que se espalha pelo reconcavo.]]>
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on Aug 16th, 2006 at 7:44 pm
< ![CDATA[Acho muito bonito esse discurso contra o capital, a burguesia, as construtoras, especialmente quando nós, da classe média, temos nossa casinha, bonitinha, ampla, e, às vezes, com vista para o mar. Só me pergunto qual a sugestão para uma cidade que, por um lado, tem déficit para construção de habitações para classe média (os burgueses, brasileiros ou gringos) , por outro, arrecada uma miséria de IPTU e ISS, principais fontes de renda de um município. Vamos proibir as construções de prédios para quem tem dinheiro? Ou os endinheirados são bem-vindos desde que tenham suas casas lindas, maravilhosas,em condomínios fechados. Ou seja, Alphaville tá liberado...
Aí, parodiando meu amigo Françuel, se perguntaria: Mas seu Gijó, porque não construir os prédios de rico em outros lugares? Tá bom, onde? Bonocô, Vasco da Gama, Cabula? Alguém tem um mapa de Salvador aí?]]>
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on Aug 16th, 2006 at 10:54 pm
< ![CDATA[Sejamos como o cachorro do Franciel, que cheira o cu do Caluca toda vez que o encontra: manda o capital estrangeiro investir nesta porra. Tras os Tourinho Dantas, os Maron Magalhães, os porra com dinheiro na Bahia. E filtra essa negada preguicosa, deixa só os que sabem tocar e dancar, que é o que sabem fazer mesmo. Então essa porra de Salvador pode vir-a-ser. Turismo, criancas, turismo é o nosso futuro. A mudanca não se faz sem grana. E esse negocio de preservar o que ainda tem de singular, cheira a coisa de viado, mas a gente pode até arranjar um jeito de encaixar.]]>
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on Aug 17th, 2006 at 8:49 am
< ![CDATA[Concordo com o inteligente leitorado de Franciel, arrebanhado na elite da juventude pefelista (menos esse tal de Franchico aí, que deve ser comunista frustrado). Tem que entregar tudo na mão dos gringos, mesmo. Povo não precisa de privilégios como orla marítima e área de lazer. Precisa de um emprego na construção civil que pague salário mínimo - sem carteira assinada. Ou isso, ou vai vender fitinha do sr do bonfim.]]>
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on Aug 17th, 2006 at 11:41 am
< ![CDATA[Vejam pelo lado positivo. Com os espigões na Orla teremos mais otários para levar pruma saidinha bancária, mais adolescentes para tomar o celular, mais patricinhas pra estuprar, mais madames pras joias tomar, mais empregadas pra furar e mais clientes pra fumar. E isto tudo com apoio da Policia Militar.]]>
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on Aug 17th, 2006 at 11:43 am
< ![CDATA[Difícil ler tanta merda junta... A exceção das aspas de Franchico, o resto é amontoado de preconceito, típico de 'minino amarelo, chei de verme e criado dentro de apartamento'... É triste ver por estas bandas os eleitores de ACM Neto, esse povo que se espoja com gosto no capim do fascismo. Dá a ameaçadora impressão de que a Bahia continuará nesse "caminho certo", daqui ao precipício...]]>
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on Aug 17th, 2006 at 3:42 pm
< ![CDATA[concordo com o artigo 12.
já estou instalando uma boca de fumo na laje do françuel, que vai ficar com 20% das vendas porque sou gente boa.
se der certo esse negócio de espigão na orla, posso montar um cativeiro para extorsões também.]]>
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on Aug 17th, 2006 at 4:07 pm
< ![CDATA[Vamo organizar a putaria. Boca-de-fumo paga dez por cento. Sequestro vinte, com morte cinquenta por cento. Assim chegamos nalgum lugar. Rio, somos tu amanhã. E o capim do facismo a gente deixa pro Janjão comer.]]>
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on Aug 17th, 2006 at 5:55 pm
< ![CDATA[Franciel,
não esquente com os comentários de algumas amebas aqui, este texto teu tá muito bom e deveria ser publicado em algum jornal.]]>
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on Aug 18th, 2006 at 10:58 am
< ![CDATA[Confiança, minha porra!!!]]>
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on Aug 18th, 2006 at 5:01 pm
< ![CDATA[e tem jornal aqui?]]>
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