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O Cinema É Uma Arma Quente ou Pra Que Serve Uma Bala?

Por João Carlos Sampaio *
Às vésperas da eleição que vai decidir o futuro do comércio de armas de fogo e munições no país, o tema ganha repercussão também na tela grande, com o filme O Senhor das Armas (Lord Of War, 2005). A película traz o ator Nicholas Cage no papel de um traficante, que faz fortuna contrabandeando suprimentos bélicos para alimentar países em guerra.
Não é a primeira vez que o cinema trata da relação entre armas, dinheiro e violência. No entanto, o tema tem se tornado mais recorrente nos últimos anos. Hollywood sempre mostrou o uso das armas de fogo, tanto nos filmes de guerra e policiais, quanto nas aventuras de faroeste, mas sem nenhum juízo de valor sobre o que a indústria bélica representa. Muito pelo contrário, o cinema faz da violência um ótimo filão para o lucro.
Filmes como o documentário Tiros em Columbine (2002), de Michael Moore, tratam das armas sob outro ponto de vista, que não o da banalização da violência. Para quem não viu ou não se lembra, a fita faz uma análise da obsessão norte-americana pelas armas de fogo, a partir de um terrível episódio acontecido numa escola de segundo grau, no qual alunos se suicidaram após terem vitimado à bala outros colegas e professores.
O mesmo episódio também inspira Elephant (2003), outra fita norte-americana, dirigida por Gus Van Sant, que dá um passo à frente em relação ao que analisa o filme de Moore. Enquanto o primeiro tentava encontrar a relação dos jovens com as armas, este último dribla explicações e prefere um mergulho voraz no mundo adolescente, para apontar a patologia causada pela glamourização da violência.
Na verdade, o caso de Columbine High School não é uma ocorrência isolada, faz parte já de uma estatística crescente de crimes sem qualquer motivação relevante. No que se refere à discussão sobre o desarmamento é esta, aliás, a questão crucial. Se o que choca são as mortes injustificadas, significa que a sociedade globalizada já assimila a hipótese do crime cometido em nome de uma causa ou qualquer valor que seja.
No brilhante filme francês Nossa Música (2004), o cineasta Jean-Luc Godard parte da dor trazida pela guerra aos muçulmanos e sérvios para elaborar um grande painel da violência no século XX. A música a qual o título se refere é o instinto humano para a guerra, sua disposição cada vez maior em substituir o som das palavras, ou seja, do diálogo, pelo estampido de um disparo.
Os números mostram como o mundo está cada vez mais armado. No citado O Senhor da Guerra, o personagem de Nicholas Cage, inspirado em dados legítimos e em traficantes de armas de verdade, lembra que, em média, há uma arma de fogo para cada 12 habitantes do mundo. Em seguida, seu personagem acrescenta: “A questão, no nosso negócio (o do comércio de armas), é como vamos armar os outros 11?”.
Amoral, narrado na primeira pessoa pelo traficante-protagonista, o filme até nos faz torcer pelo carismático (embora patológico) personagem de Cage. Não é um grande filme, mas na abertura há uma trucagem interessante, que nos faz ver o mundo pela perspectiva subjetiva de uma bala. Vê-se todo o percurso, desde que ela deixa de ser matéria-prima na indústria, passando pela distribuição e, finalmente, cumprindo seu destino, ao atingir o crânio de um ser humano. Tudo o que se vê depois é irrelevante.
E o cinema é só ilusão.
O problema é que a vida não permite remake, nem se o tiro sair pela culatra. Pior, as balas disparadas, como diz o reclame publicitário, “por uma pessoa de bem”, também acertam alvos. Sendo que aqui não há trucagens, nem bonecos de borracha. Não são efeitos especiais indicados ao Oscar. Muito menos uma nova performance de um astro de Hollywood. É a vida de gente comum, cujo rosto não vai sequer ser visto nas estatísticas.
* Crítico das balas e de cinema, é também proprietário de três badogues
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9 Comments on “O Cinema É Uma Arma Quente ou Pra Que Serve Uma Bala?”

  1. #1
    on Oct 18th, 2005 at 3:52 pm

    < ![CDATA[Gostei bastante do seu blog, apesar de não concordadr com a maioria das coisas que vc diz

    Nos banheiros do congresso]]>

    [Reply]

  2. #2
    on Oct 18th, 2005 at 6:01 pm

    < ![CDATA[Maradona habla:
    ?Donde estas canijah?]]>

    [Reply]

  3. #3
    on Oct 18th, 2005 at 6:40 pm

    < ![CDATA[Sêo João,

    Por conta da minha avançada idade, posso me recostar na rede do avarandado da casa-da-roça e ficar olhando as galinhas ciscando no terreiro, enquanto vossa mercê, que é ainda potrinho perto desse burro velho que vos aborrece, é obrigados a votar.
    De minha parte, e sem querer causar agravo a ninguém, tenho meu clavinote e meu papo-amarelo e deles não me arrenego enquanto Deus me der forças prá aguentá-los nos ombros e vista prá fazer pontaria. Mas acho que esse negócio de ter um pau-de-fogo em casa é coisa prá gente velha da minha marca, gente de outra época, como dizia a finada Damiana, minha tia.
    A juventude tem outras armas e não precisa de garruncha e cartuncheira prá fazer valer suas idéias. A caneta e o caderno são melhores que muito trabuco cuspidor de faísca.
    Agora, quando o assunto é badogue, a coisa é diferente. Prá que três, homem? Eu estou sem nenhum. Façamos o seguinte: a forquilha e o couro eu arranjo por aqui, mas mande as borrachas de pelo menos um deles prá mim, porque depois que acabaram com os Pneus de câmara de ar, está mais difícil arrumar tira prá badogue do mulher direita em Pernambuco.
    Um abraço do amigo velho,

    Manoel Feliciano da Paixão (O Caluca)]]>

    [Reply]

  4. #4
    on Oct 18th, 2005 at 7:12 pm

    < ![CDATA[Janjão, além das películas, dado o seu profundo e eloquente argumento, nos hinos de alguns países (inclusive do meus país), clubes de futebol, torcidas organizadas e até em canções infantis, o conteúdo das letras traz um passado agressivo, induzido à glória, assim como a humanidade vem caminhando. Foi bom fazer-me entender que o nosso referendo trata de uma atitude isolada em relação ao continente, bastante criticada (com as devidas razões), mas bastante humana (sentido evolutivo da palavra). Globalizemos a atitude, a palavra é uma boa arma, já que em outras bocas nos faz reféns. Se faz necessário saber que ambiente vem se criando em nossas vidas.
    O chato nisso tudo é saber que César Borges é o relator do referendo. Desde a greve de 2003, com Cátia Alves nas negociações, ele vem tirando as armas de quem de fato deve possuí-las.]]>

    [Reply]

  5. #5
    on Oct 18th, 2005 at 8:15 pm

    < ![CDATA[caluca trocando badogue com janjão?
    que negócio estranho, sô!]]>

    [Reply]

  6. #6
    on Oct 19th, 2005 at 11:38 am

    < ![CDATA[Caríssimo Caluca,

    A elevada quantidade de badogue é obra da fértil imaginação do nosso comum amigo, o sertanejo Franciel, inventor dessa ingrisia. Nunca andei com mais de um. Mas em Aratuípe, donde venho, badogue da melhor estirpe é feito de borracha de soro, que a gente pegava emprestado sem pedir e sem prazo pra devolver no posto médico da cidade… Além de mais duráveis, as borrachas de soro davam melhor impulso… Mas desde os verdes anos da infância abandonei a arte das badogadas, porque vindo morar na capital descobri, que a arquitetura das cidades grandes possui displicentes vidraças por todos os lados… Tal é grave este problema de má engenharia, que, costumeiramente, minha santa mãezinha acabava tendo muitas dores de cabeça desnecessárias… De modo que a única “arma de fogo”, que mantenho casa é uma puríssima artesanal do recôncavo, que passarinho nenhum se arvora a beber…

    Sobre a má lembrança de César Borges (três batidas na madeira): Só queria dizer que não é porque o diabo não presta que o inferno é lugar ruim…

    Para o desinfeliz que conseguiu, num esforço de catilogência e sem-vergonhice, insinuar que minha pessoa anda “trocando” qualquer coisa, vale lembrar que sou nascido e criado em Aratuípe, onde todo mundo sabe que xibungo é coisa desse povo civilizado da capital. Lá, a gente é muito atrasado! Escambo até é moeda corrente, mas o verbo “trocar” usamos só no sentido denotativo, de tal maneira que a afrescalhação de gente folgada da sua marca ainda não apareceu por lá…]]>

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  7. #7
    on Oct 19th, 2005 at 3:53 pm

    < ![CDATA[Janjão,
    O que isso, moreno? Dizer que no Recôncavo só Macho-chô é um assinte. Assim vc me ofende.]]>

    [Reply]

  8. #8
    on Oct 19th, 2005 at 6:45 pm

    < ![CDATA[Assinte se escreve com 'c', seu beiroso.]]>

    [Reply]

  9. #9
    on Oct 20th, 2005 at 8:48 am

    < ![CDATA[Franciel disse sim.
    Janjão continua preso na Preto Velho, repassando os textos que esses meninos do cinema dão pra ele.

    Esse mundo tá perdido

    pelosim pelonão]]>

    [Reply]

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