As boas novas de setembro chegam via e-mail. Meu amigo Lula Oliveira informa que Na Terra do Sol, seu curta legendado por minha amiga Saneguel, estreará na próxima terça-feira, dia 6, ali, bem pertinho, ó, em Vancouver (Canadá), no III Festival Latino Americano de Cinema (www.vlaff.org) . Os interessados podem agora se dirigir ao Aeroporto Internacional Deputado Estadual e Federal Luís Eduardo Magalhães (Copiráite Canijah). Ainda dá tempo. E quem tiver mais tempo, pode começar a ler as áridas e intermináveis linhas abaixo, que escrevi antes da película atingir os píncaros da glória.
A Lula, boa sorte. Aos que tiverem coragem de enfrentar a peleja a seguir, mais sorte ainda.
CINE-CACHACISMO SERTANEJO
Maestro, um instante, por favor. Deixe-me ouvir direito. Quer dizer que acabou a ingresia moralista acerca da pinga ingerida pelo presidente Lula? Então, para o bem e para o mal, a branquinha já pode voltar à mesa central deste boteco.
Garçon, se não for lhe trazer dissabores, misture-a com cinema e sertão, oquei? Sim. Sei, que é um convite à embriaguez de fritar miolos, mas, avante.
Canudos está de volta à tela grande. A tragédia termina nunca. Ê cachaça. O culpado agora não é o mandatário-mor, mas o Lula gente boa, o Oliveira. Ele acabou de filmar o curta-metragem Na Terra do Sol, uma saga dos últimos sobreviventes da peleja sertânica.
Informa o missionário Antonio Olavo que, desde a década de 40, já foram cometidos 30 filmes e vídeos sobre a causa de Conselheiro. Haja fé. Nesta epopéia cinematográfico-cachacista-religiosa, saco primeiro meu velho e bom Eclesiastes 1.9, e leio contrito: “Não há nada de novo sob o sol“. Eis a verdade. Palavras da salvação.
Não para uns e outros. O diretor de fotografia da película em questão, Pedro Semanovski, por exemplo, discorda. Ele acredita que há muito mais coisas a se (re)fazer no cinema do que pode imaginar nossa vã filosofia de budega. Assim, possuído por um espírito-de-porco cinemanovista, decidiu abrir mão nas filmagens até de rebatedores para ter “o sol como única fonte de luz“, conforme asseverou à imprensa baiana.
Vixe. Danou-se.
Alguém aí não está bebendo. Os que têm as manhas da mardita e do sertão, sabem: para combater os graves efeitos da inclemência do astro-rei na moleira, só a companhia de umas boas doses da água que passarinho enjeita. Será que faltou isso no set? Espero que não, afinal desejo muito boa sorte a Lula, que é um artista bom, pontual e sincero.
Pronto, maquinista. Já pode subir os créditos. Garçon, nova rodada de pinga, faz favor. Agora, misture-a com sertão e seresta.
Antes, porém, registro que o vice-versa da teoria do parágrafo acima também é verdadeiro, como diria o goleador Jardel. Eu mesmo tenho prova histórica de que há substancial desequilíbrio no juízo do sertanejo que ingere a canjebrina longe do torrão natal. (Um aviso importante. Para chegar à tal prova, você terá que percorrer árduas e áridas 54 linhas).
Seguinte. Tive a certeza cabal desta tese por conta de um episódio passado há quase 20 anos. Tenho consciência de que esta história que relatarei abaixo ganharia em emoção e beleza se, ao invés de me prender à realidade, eu a fantasiasse. Mas, como um escrivão ranzinza, a tudo só consigo apor a frase opressora: Isto é verdade e dou fé.
Sei ainda que alguns possuídos pela bubônica do rato irão insinuar que estou querendo ofender meus personagens com nomes, no mínimo, esquisitos, mas a verdade (olha ela aí novamente!) é que estava lá no registro do nosso herói: Fariseu Alecrim.
Nascido em Formosa, nos arredores do Raso da Catarina, onde o Sertão não é para principiantes, ele viu o mar em 1985, aos 22 anos. Foi recepcionado na capital baiana por seu primo Jorge Rogério, que servia como sargento ao glorioso Exército Brasileiro.
Na estréia em Salvador, Fariseu foi acometido por aquele banzo que vitima os que abandonam o velho torrão. Sagaz, o anfitrião JR resolveu propiciar ao parente uma volta às origens. Primeiro obstáculo. Superar o forte cheiro de mijo das escadarias do Major Calango, que separam o Forte de São Pedro, onde o militar servia, do Bar Quintal. (Esta budega, à época, trazia também o Raso da Catarina no sobrenome, se é que boteco tem sobrenome).
Início da noite. Abertura dos trabalhos. Um, dois, três, quatro, cinco Príncipes Malucos. Para cada um. Bastavam, conforme a tradição, quatro doses daquela mistura danosa. Abaíra, mel, canela, açúcar e sabe deus mais o quê aperreiam de forma irremediável as idéias de qualquer cristão. E provocam euforia. Não no calado retirante. Quase meia-noite e nenhuma palavra. Nem mesmo para o digno bode seco preparado pelas mãos sábias de Rosinha.
Porém, o nosso astuto e vadio Pedro Malazarte de fardas não desiste de inventar felicidade para o visitante. Parte para a cartada decisiva. “Próxima parada será no Du Pacheco, na Avenida Joana Angélica“, anunciou, convidando ainda para a empreitada este que vos aborrece. O recinto, não exatamente aconchegante, era habitado por mestres-de-obras, motoristas de ônibus, funcionárias da Mesbla, além de palco para serestas de primeira.
A sorte, às vezes, também ajuda. Logo na entrada, um comboio de mulheres. Paulistas descoladas. Desistiram do roteiro turístico tradicional para conhecer a Bahia profunda e verdadeira, como se esta existisse. Começa a dança. Cada qual no seu cada qual. No canto, a moça fala, Fariseu não. Responde apenas apertando-a, mais e mais. Mais até do que o recomendável.
E ele sente falta do sol na moleira e começa a suar. Tesão. Cachaça. Coragem. Vem então aquela idéia brilhante que costuma agraciar os bêbados nos momentos fatais. Com os olhos esbugalhados pela certeza, nosso herói rompe o silêncio. “Também sou de São Paulo. Também sou de São Paulo“. Viiiiiiixe Maria! Hômi quá, sinhô me deixe.
O som alto e a surpresa não permitem à turista mudernosa perceber o forte sotaque do rapaz. Contudo, no intervalo entre um Lucho Gatica e um Nelson Gonçalves, ela já quer saber onde seu conterrâneo mora na paulicéia. Empolgado como um evangélico, Fariseu, morador da periferia da pequena Formosa, prossegue falando com as mãos firmes e retas: “Tem a entrada? Tem a praça? Tem a igreja? Moro ao lado da Igreja“, arremata triunfante.
Som nas alturas. Sem escutar nada, ela balança a cabeça positivamente.
Percebendo que a estratégia é um sucesso, ele a repete sem parar, como se fora um professor de Geometria em seu mantra particular. “Tem a entrada? Tem a … “.
O som pára. Fariseu continua. Só.
Fim da noite. Vamos para o Boteco do Beleza, aquele cabe-cinco da Rua do Paraíso. Bebo uma infusão daquelas poca-tênis e penso em Canudos, no sol e nas danadas - as moças e as pingas. Euclidianamente, constato. Sem a cachaça, o sertanejo é, antes de tudo…Um tabaréu.






on Sep 1st, 2005 at 2:50 pm
< ![CDATA[franciel é o gênio da raça!!]]>
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on Sep 1st, 2005 at 3:53 pm
< ![CDATA[Boa sorte, a Lula Boy!
E foi bom reler esse texto.]]>
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on Sep 1st, 2005 at 4:06 pm
< ![CDATA[Du Pacheco... até hoje não esqueço desse boteco que nem cheguei a conhecer. Foi a partir do primeiro envio desta missiva que passamos a marcar aquela cervejada que nunca se realiza. Será esta republicação algum sinal celestial?
Bjs]]>
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on Sep 1st, 2005 at 4:08 pm
< ![CDATA[Esqueci de assinar aí no alto.]]>
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on Sep 1st, 2005 at 5:38 pm
< ![CDATA[Li inteiro, de cabo a rabo, como manda o figurino. Como diria o finado João Paulo II, "Que coisa boa da desgraça!"]]>
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on Sep 1st, 2005 at 5:43 pm
< ![CDATA[ducaralho Franciel, um dos melhores textos que já li de vossa autoria. e toda a sorte ao menino Lula, rapaz de bom coração que se meteu nessa maluquice de fazer cinema na Bahia.]]>
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on Sep 1st, 2005 at 8:31 pm
< ![CDATA[Sêo Franciel,
Por favor, não me pergunte como foi que entrei nessa história, mas o problema é que, atendendo ao pedido cordato do Sêu Franchico, pedi ajuda a Osny, meu neto, e botei prá parir um blog (é assim que diz?).
De agora em diante, meus comentários nesta Ingresia serão curtos, apenas um doce prá atrair a formiga prá toca certa, o http://www.calucavaqueiro.blogspot.com/.
No mais, já havia falado sobre esse vosso artigo quando ele foi escrito da primeira vez.
Manoel Feliciano da Paixão (o Caluca)]]>
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on Sep 2nd, 2005 at 9:08 am
< ![CDATA[ JANJÃO DE ARATUÍPE acrescenta:
Estando presente ao set de Na Terra do Sol, utilizo deste precioso espaço para dirimir qualquer dúvida quanto à presença da verdadeira preferência nacional, o aguardente, durante as referidas filmagens. Aos que virem as cenas do filme e por acaso acharem que falta cinema (eu pessoalmente me dou por satisfeito, não acho que falte…) saibam que cachaça não faltou, nem um dia sequer. Chegava pontual e junto com boas lascas de bode assado…
Mais ainda: do mais reles estagiário ao nosso diretor-mor (que dizem as más línguas chegou a trocar as pernas em dos mui calientes dias de captação de imagem… Eu não vi e não ouso a repetir o que por mim não foi testemunhado… Por isso mesmo nunca simpatizei com a idéia de ser testemunha de Jeová, porque na hora da briga eu não tava lá…) todos se aplicaram direitinho, de modos que - dada a sobriedade e dramaticidade das cenas - há de se concluir que toda a equipe merece o prêmio de atuação/interpretação.
O resto é sol na moleira…
Ps: Pedrinho fez um belíssimo trabalho de fotografia, quem viver e ver verá (com direito a sangue, suor e até uma queda cinematográfica… risos…)]]>
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on Sep 2nd, 2005 at 5:44 pm
< ![CDATA[Pra mim tá tudo é certo.
La Niña]]>
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on Sep 2nd, 2005 at 9:09 pm
< ![CDATA[Quem há de negar que esta lhe é superior?]]>
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on Sep 2nd, 2005 at 9:11 pm
< ![CDATA[Ahhhh seu caetano, entendi. Trata-se de amizade]]>
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on Sep 5th, 2005 at 3:13 pm
< ![CDATA[Não vi,mas quero ver esta obra do outro Lula. Espero que não faça cena nem a roube.]]>
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on Sep 6th, 2005 at 6:42 pm
< ![CDATA[Lá ele, seu franciel, que texto mais comprido]]>
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