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Interrompemos nossa programação…

Há quase meia década, exatamente no dia 3 de maio do ano da graça de 2005, o seguinte acontecimento mudava as feições desta besta e zuadenta província: O Ingresia, primeiro blog heterossexual da Soterópolis e de uma banda de Sergipe, entrava no ar com gosto de querosene, perfurando o espaço virtual sem dó nem piedade.

Um assombro!

É fato que, de lá pra cá, mudou coisa mudou – e muitas outras permaneceram iguaizinhas. Inobstante (recebam, hereges), esta intimorata emissora manteve-se firme e ereta na defesa dos sagrados princípios que nortearam sua breve existência: A promoção constante e contínua da chibança e da dança de rato. 

Foram dias de glória, choro e ranger de dentes, mas a verdade, esta menina traquina que salva e liberta, é uma só: Desde que abri (lá ele) o BLOG DO VITÓRIA comecei a perder o tesão de rabiscar as tradicionais bobagens aqui.  Permaneci na labuta somente para não deixar chorosas as mocinhas que não podem viver sem a voz vibrante e vibrática deste locutor. É que tenho o coração mole.

Porém, como diria o filósofo Edson Gomes:

Por mais forte que seja o homem, que seja o homem

Sempre chega o momento, sempre chega o

De cair diante de um sentimento.

E meu sentimento agora é que se tornou inviável continuar. Por isso, saio desta vida para entrar na história. Vou ali dar um mergulho no Porto da Barra. Talvez um dia eu volte. 

Já fui, Banda Aiyê.

P.S Aos desocupados e aos que chegam agora, um aviso: podem ler os arquivos. Não paga nada. E, modéstias às favas, existem uns três ou nove textos maizomenos.

De nada.

Mayra

Nas raras vezes em que tive o desprazer de ver e ouvir aqueles senhores engravatados  propagando seus discursos bonitos e estéreis à beira do túmulo, reforçou-se uma de minhas poucas convicções. Qual seja: Há muito mais valor numa inexistente nota de três dólares do que nas laudatórias saudações fúnebres.
Putaquepariu o coveiro!

Aliás, pior. Por não crer na redenção dos justos, na vida eterna, amém e etc e coisa e tals, sempre achei este negócio de mensagens póstumas um tanto quanto cretinas – principalmente as feitas com voz empostada. Por isso, e por restar-me um tanto assim de vergonha e dignidade, fugia das referidas pregações como uma madame de loja de grife  escapole das malhas do fisco.

Porém, conforme já repeti diversas vezes aqui nesta ordinária tribuna, convicções e certezas são bichos traiçoeiros. Basta um descuido e… vupt….começamos a concordar com aquilo que desprezávamos.

Pois muito bem.

Estes bestas prolegômenos são apenas para dizer que, pela primeira vez na vida, fiquei sinceramente emocionado com algo que abominava: Uma nota de pesar. E pior. Uma nota de pesar de um partido político.

Mas, a verdade é que, ao ler a homenagem póstuma em forma de moção apresentada pelo PT por causa da injusta e precoce morte da menina Mayra Landim, meus olhos ficaram rasos d’água. Não sei os porquês, porém sei que, de alguma forma, havia verdade nas palavras do partido – mesmo partido que abandonei há cerca de duas décadas, antes mesmo de filiar-me, por não concordar com seus (des) caminhos.

Mas, derivo. O fato é que quando li/ouvi eles dizendo que “Mayra sempre teve a capacidade de agregar de modo sério e afetuoso a diversidade política”, não me pareceu mais um discurso vazio, politiqueiro, mas sim a representação do que foi (e é) Mayra: Uma pessoa séria e afetuosa, que realmente compreendia e respeitava a diversidade. Uma menina quase-paradoxo, pois era militante e estudiosa, gentil e firme, coisas um tanto quanto antagônicas. 

Por falar em antagonismo e discrepâncias, lembro que, apesar de infelizmente convivermos tão pouco, Mayra tinha uma força tão forte de persuasão pelo exemplo que quase me leva a cometer um dos maiores desatinos de minha vida: Participar de um governo.

“Sandro (era assim que ela me chamava, talvez ainda por influência de Zé), venha colaborar conosco na implantação do Orçamento Participativo”, convidou-me no início de 2007. E eu, mesmo avesso a governos, fiquei balançado, especialmente por saber que, com Mayra, poderia ser diferente. Porém, feliz ou infelizmente, acabamos não trabalhando juntos. Registre-se que o convite muito provavelmente aconteceu por influência de Araka, que, como bem disse Bina, tem o dom de se preocupar mais com os outros do que com ele mesmo.

E já que falei em preocupações e cuidados, Araka sempre estava na lista de prioridade máxima da menina Mayra.  Não à toa que ela, sempre tão ponderada, perdia a noção e acreditava que eu tinha alguma ascendência sobre o referido. Assim, de quando em vez, nas inúmeras aprontações do sacana, ela me ligava: “Sandro, toma conta de Araka e manda ele vim pra casa, pois ele te obedece”.

Aooonde? Só uma santa como Mayra para acreditar neste tipo de milagre. Aliás, talvez até fosse verdade, pois Mayra era uma pessoa que fazia com que os milagres não fossem este algo tão intangível.

Ode ao peladeiro

De acordo com o decreto de nº 666, assinado ontem pela Besta Fera dos Pampas, este Sarneyzão/2009 está moralmente condenado. Nenhum dos líderes, garantiu o Endemoniado, tem o mínimo de dignidade para levantar o caneco.

Palavras da salvação.

Por isso, seu garçom, faça o favor de me trazer depressa uma boa cerva bem gelada e vamos falar de jangada, que é pau que bóia (NS, nenhum sentido, mas deixe a porra do acento, revisor).

Seguinte é este.

Se existisse puliça de respeito nestepaiz (alô, Lula) já era pra esta renca de sacanas, que alguns chamam de atletas profissionais, estar toda no xilindró respondendo por homicício doloso. Afinal, é inaceitável o que os boleiros estão fazendo hodiernamente (recebam, fariseus) contra o bom e velho pebolismo.

Aos desinformados, conto qual é o crime. Seguinte. 97,48% dos assassinos, digo, os jogadores, têm entrado em campo neste torneio nacional iguais àqueles cidadãos com 25 anos de casamento: apenas para cumprir a obrigação. Enquanto isso, o futebol romântico, com gosto de querosene e irreverência (seja lá o que isto signifique), tornou-se uma quimera encontrada somente nas excelentes crônicas do menino Thalles Gomes.

Atualmente, além das extintas raça e hombridade, faltam principalmente o brilho, a improvisação e a deliciosa irresponsabilidade.

Ou melhor, faltavam.

Tudo começou a mudar neste insosso campeonato e na história recente do Ludopédio de Pindorama no crepúsculo de agosto, exatamente no dia 30, a partir das 18h30.

Nesta data e horário, Vitória x Cruzeiro se enfrentavam no Manoel Barradas e, pela primeira vez, Sosthenes José dos Santos Salles começava uma partida como titular no Brasileirão. É fato que ele já havia jogado uns minutos em algumas outras, a exemplo do jogo contra o Goiás, quando entrou no finalzinho e guardou este gol de quem conhece. O fato, no entanto, é que a peleja contra a equipe celeste de Minas foi um divisor de águas. E utilizo esta batida expressão não apenas porque neste referido dia chovia de forma inconsequente nesta província baiana. Uso-a porque, apesar do temporal que caia em Soterópolis, o menino Sosthenes começou a tirar o futebol atual da lama, dando uma série de dribles desconcertantes nos zagueiros cruzeirenses e fazendo-nos lembrar dos craques moleques de antanho.

O show não parou aí. Na partida seguinte, Neto Berola, eis o apelido do santo, azucrinou a pomposa defesa do Grêmio, em pleno estádio Olímpico, e, logo na sequência, emendou um partidaço contra o então líder Palmeiras.

Mas, a prova final de que o atacante Rubro-Negro não estava pra brincadeira, ou melhor, que estava também para brincadeira, veio no último sábado, no jogo contra o Internacional – time que tem um elenco acima da capacidade de seu técnico.

Pois muito bem.

O ponteiro do relógio marcava exatamente 17 minutos e 29 segundos da etapa complementar quando o pirralho de Buerarema, que até dois anos antes ainda jogava no futebol amador, ficou diante do monstro sagrado da equipe colorada, sim, Guiñazu, aquele que nas horas vagas faz o papel de B.A no glorioso Esquadrão Classe A. Pois então. Parecendo que estava na frente de mais um zagueiro do campeonato intermunicipal, Neto Berola simplesmente, sem nenhum pudor, meteu a bola por entre as canetas do argentino.

Putaquepariu o Mercosul!

A partir de então, tudo se transformou. A partida, que até aquele momento era absolutamente parelha, tornou-se um suplício para o time Gaudério, que não agüentou ver seu principal ídolo ser humilhado por um sujeito recém-saído dos cueiros. E a verdade que salva e liberta, amigos ouvintes, é uma só: depois do drible fatal, a agremiação do Sul perdeu completamente o Norte (hoje eu tô foda) e entregou a rapadura.

Antes do apito final do juiz ladrão (desculpe-me mais uma vez a redundância), a menina Scarlett, que nunca me deixa quieto, questiona:

- Mas, Sêo Françuel, Neto Berola é realmente este craque todo?.

E, como sói, nunca deixo a loira sem resposta.

- Num é não, fia. É apenas um peladeiro que adora mostrar que os reis estão nus – o que não deixa de ser uma glória, talvez a maior, neste nosso campeonato de várzea bestamente profissionalizado.

O indizível

Na madrugada de terça-feira – quando o ponteiro do relógio marcava coisa de 10h46 e a tradicional  ressaca do fim de semana se dissipava – comecei a direcionar minhas parcas forças para um ritual que repito há séculos seculorum: exercer a honrosa secação contra o Bahia.

Aos que não acompanham o campeonato de acesso, informo que na noite do referido dia eles enfrentariam a poderosa agremiação do ABC, então lanterna da gloriosa Segundona, que iria a campo desfalcado de cinco titulares.  Mas, não queria nem saber se o time do Rio Grande do Norte estava caindo pelas tabelas e etc e coisa e tals, eu queria era secar o adversário.  

Aliás, para não passar de mentiroso, mais do que já mereço, informo que minha energia no início da referida terça-feira estava toda voltada, na verdade, para algo muito pior: a elaboração de piadas infames contra o tricolor baiano. Tipo assim. Como o jogo era válido pela 24ª rodada, já pensava em propagar que o Bahia iria fazer o que mais gosta: levar uma enfiada no Frasqueirão (nome do Estádio potiguar). E, creiam: apesar da inominável bobagem, eu ria sozinho, como ri sozinho todas as vezes que pensava em alguma besteira para sacanear meu adversário.  

Pois muito bem. A noite chegou e as minhas melhores previsões se confirmaram. O Bahia realmente levou uma enfiada no Frasqueirão: 3 x 0. Porém, ao contrário das vezes anteriores, não vibrei com mais um fracasso do tricolor. Não tive forças sequer para ligar para os amigos e fazer as tradicionais gozações.  Pior. Fiquei triste, muito triste. Só não digo melancólico porque não sou dado a estas viadagens. O fato, porém, é que não consegui vibrar com o insucesso de meu ex-rival.

Sim, ex-rival. E aí está a tragédia. Percebi que o Esquadrão de Aço não é mais meu rival. Hoje, eles são apenas uns farrapos que se arrastam pelos campos sem nenhum brio. Parecem até que incorporaram a pasmaceira dos diretores que há tempos maculam a imagem da equipe. E olhe que vi já o Bahia até na Série C (e sequei), mas nunca vi um time assim. E, definitivamente, não quero isto como adversário.

A desgraça é que, ao ver o adversário ir à lona de forma tão humilhante, perdi até mesmo a alegria de sacanear. E não é por piedade, mas sim por amor próprio. Afinal, não quero ter como adversário uma equipe que não respeita suas cores e tradições.   A desonra foi tão grande que não consegui nem me entusiasmar com seu vexame. E a desgraça maior ainda é que não se tem em Salvador nenhuma outra equipe para colocar no lugar deles. Por tudo isso, constatei que a derrota humilhante do Bahia na noite desta terça-feira foi também uma espécie de derrota minha.

Portanto, resta-me apenas pedir desculpas a quem conseguiu chegar até aqui. É que nos momentos de quedas tão fragorosas assim ficamos sem forças até para elaborar as idéias, ficamos sem ter o que dizer.

Seleção Brasileira (na Bahia) é fogo

Desde a mais tenra idade (lá se vão algumas décadas) guio-me pelo seguinte axioma: Homem que é homem só se importa com jogos de verdade – tipo Vitória x Leônico, numa quarta-feira chuvosa, ou Icasa x Guarani de Juazeiro do Norte, em dia de procissão de romeiros. O resto é boticário. Só cheiro. E cheiro mole.

Este negócio de Seleção Brasileira, por exemplo, sempre achei igual a doce: só quem se interessa é mulher, formiga e viado.

Porém, depois dos acontecimentos que marcaram o retorno dos comandados de Dunga a esta província, venho a esta intimorata tribuna confessar que me enganei. Em nome da verdade histórica faz-se mister destacar que, pelo menos aqui na Bahia, há outro tipo de gente que aprecia os jogos do time canarinho: os piromaníacos.

Bastam soar os primeiros acordes do Hino Nacional e eles metem bronca.

Aos fatos.

Na última partida oficial do esquadrão da CBF aqui em Soterópolis, no ano da graça de 1989, foi um rebuliço dos seiscentos. Indignados com o corte do centroavante Charles Fabian, os revoltosos atearam fogo na bandeira brasileira, sem dó nem piedade.

Pois muito bem.

O tempo passa, voa, o bamerindus se fode todo e a revolta continua numa boa. Quer dizer, nem tão boa assim.

Exatos 20 anos depois, os piromaníacos voltaram a atacar. Só que, em vez de queimar a bandeira nacional, eles agora tocam fogo em ônibus e módulos policiais. A imprensa informa (desculpe a contradição) que este furdunço é por conta de uma cizânia envolvendo traficantes. Mas, como diria o presidente, é menas verdade. A culpa, vos asseguro, é da Seleção Brasileira – tanto naquela época como agora. É só sentir o cheiro da camisa amerela que os piromaníacos entram em ação. Podem anotar. Assim que os malditos forem embora tudo se acalma. Aliás, nem tudo. Há algo que não nos dá sossego nunca: a folclorização.

Putaquepariu Luís Câmara Cascudo!

Não há algo que me cause mais ojeriza do que as presepadas folclorizantes. Talvez esta minha repulsa seja fruto de séculos de convivência com as propagandas da Bahiatursa. Não há estômago de avestruz que aguente. 

Um exemplo? Recebam.

A Cidade do Salvador tem um dos mais altos índices pluviométricos do Brasil, com uma média anual superior a 1900 mm, mas foi vendida, literalmente, como uma sucursal do paraíso, onde faz sol o ano inteiro. No entanto, creiam, aqui é um inferno. Agora mesmo, com esta onda de violência, a capital baiana está ardendo em chamas.

No entanto, por terem sido adestrados para achar tudo lindo e maravilhoso, os jornalistas esqueceram a balbúrdia nas ruas de Salvador, vestiram uma camisa listrada e sairam por aí, às vésperas do jogo, escrevendo coisas completamente sem conexão com a realidade. Ouçam isto aqui, por exempo, publicado na EspBr: “Enquanto os turistas passam as tardes em Itapuã, senhoras com trajes típicos povoam as ruas de Salvador e a maioria dos baianos faz jus à fama de preguiçosa durante a Semana da Pátria, a seleção brasileira corre bastante para manter a boa fase nas Eliminatórias para a Copa do Mundo”.

É fato que turista é uma classe de otários, mas duvido que algum vá passar tardes de setembro em Itapuã. Já as “senhoras de trajes típicos” povoando as ruas de Salvador só se for as digníssimas mãe e tias do repórter.   

Parem as máquinas e me façam um caldo de cana contaminado, por favor.

 

P.S. Por falar em folclorização, constantei novamente o mal que ela pode fazer a um povo. Neste último fim de semana estive em Porto Alegre e pude comprovar que, ao contrário do que reza a lenda, nem todos os que nascem no Rio Grande do sul são viados. Eu conheci uns nove lá (tá bom, dois) que são gaúchos, mas não praticam.

Nervos de aço

Só agora, passadas as regulamentares 48 horas da ressaca, é possível fazer a inevitável e retórica indagação: que fenômeno foi aquele que assombrou Porto Alegre e uma banda de Santa Catarina na noite do último sábado?

Putaquepariu a revolução farroupilha!

É vero que exegetas (recebam, fariseus) da Bíblia já intuíam os primeiros sinais do apocalipse muito antes da bola rolar no Estádio Olímpico. Basta lembrar que no avião rumo à capital gaúcha a primeira fila era ocupada pelo riso ingênuo, puro e franco, daqueles de filme de terror, de Paulo Henrique Amorim. A referida besta-fera jornalística folheava um livro, com soldados nazistas na capa, como quem diz: “olá, boa noite, tudo bem?”.

É óbvio que não estava tudo bem. Ou melhor, que não poderia ficar.

Porém, pisando em astros distraído, relevei as indicações de que o fim do mundo estava próximo. E, em vez de mandar o motô retornar para a Bahia, segui adiante. Só fui ter a certeza de que o plantão nas terras do glorioso Borges de Medeiros seria rigoroso, sopa de tamanco, quando Alcides Gonçalves (ou um outro parceiro de Lupicínio, sei lá) acenou para mim numa budega da Lima e Silva, na Cidade Baixa, com um bigode embriagado e tenebrosamente assustador – coisa de assombrar Zé do Caixão!

Vá matar o DEMÔNHO!

Aliás, um parêntese. Ao ver o tal bigode lupicínico, todos os gaúchos resolveram tirar o corpo fora. Douglas disse que era mais negócio ir para a ExporInter; Cassol inventou uma reunião em Pelotas; Dante Sasso afirmou que não curtia jogo do Grêmio – e Prestes, com a camisa do Chile, garantiu que o enfeite na face de Sêo Alcides era GENIAL! Devendra parece que nasceu em Santo Amaro. Acha tudo lindo e maravilhoso.

Mas, derivo. E fecho o parêntese. E sigo rumo ao local da peleja acompanhado de Milton Ribeiro que, apesar do nariz protuberante, não conseguiu farejar que algo estava fora da ordem.

Mas, estava. Logo na chegada, por exemplo, percebo que somos minoria absoluta. A falta de quantidade, porém, é recompensada pela qualidade. Uma morena linda, acompanhante de um tiozinho baiano, grita o nome do Rubro-Negro com um delicioso sotaque e uma alegria na feição de quem estava sendo recompensada em euros. É fato que ela não sabia nada sobre Ludopédio. Nem precisava. Afinal, para alegrar a reduzida torcida gaúcho-baiana, bastavam as lindas coreografias que a moça, vinda diretamente do Gruta Azul (ou de Tia Carmen, sei lá!), realizava na arquibancada.

E a dança da menina era tão contagiante que inspirava até mesmo a então sisuda zaga gremista, que não parou de bailar o jogo todo. Os atacantes do Vitória partiam em direção ao gol e os defensores azuis deixavam correr frouxo. Parece que estavam no palco de algum Centro de Tradições Gaudérias, pois apenas se mexiam no gramado de forma afrescalhada, como se estivessem dançando chulas, rancheiras, tangos & tragédias.

Por falar em tragédias, ela deu o ar da graça no finzinho do jogo, como sói ocorrer com o desafortunado time do Vitória. Depois de meter 1 x 0 e perder 824 gols, o Leão voltou a flertar com o perigo. O ponteiro do relógio marcava exatamente 41 minutos e trinta e oito segundos da etapa complementar quando o desinfeliz do Marco Aurélio deixou Jonas mandar a criança para o barbante, sem tentar ao menos quebrar-lhe as pernas. Ato contínuo, mandei o zagueiro do Vitória para a puta que o pariu, afinal podem existir

pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passei
duvido que não lhe viesse parecida reação.

A educação baiana é uma menina que desce a ladeira

Esta grave inclinação no eixo de rotação da terra é conseqüência (deixa o trema, revisor fidumasanta) direta daquilo que todos vocês estão pensando: o rebuliço que tomou conta da Bahia e de uma banda de Sergipe por causa das estripulias cometidas pela professora Jaqueline Carvalho num destes shows de pagode que abundam (ops!) nesta besta e ainda bela província.

Amigos, em verdade vos digo: Nem nos Ba X Vis mais decisivos da história do Ludopédio Soteropolitano se viu uma cidade tão dividida. De um lado do ringue, prostraram-se as senhoras de santana, amaldiçoando a indecência e outras mumunhas. Do outro, uns mudernos cerraram os punhos, de forma veemente e um tanto quanto afrescalhada, reclamando da hipocrisia da sociedade.

No meio desta chibança, chamou a atenção o silêncio ensurdecedor de Ivete Sangalo. Logo ela, que tem opinado sobre tudo, desde a obra de Machado de Assis até os aspectos semiológicos dos peidos dos ciganos, cala-se neste grave momento da nação? É inaceitável. Vamos torcer para que este mutismo seja apenas um fastio passageiro provocado pela gravidez. Se Deus quiser, já, já, ela volta.

Mas, derivo. O fato é que, diante do remelexo da moça, este recatado locutor só conseguia repetir aquele tradicional slogan da funerária: “Há momentos em que faltam as palavras”.

A priori, pensei até em vestir uma capa de udenista moralizador travestido de intelectual e dizer que a dança provocante da professora era reflexo do atual estágio da educação na Bahia. Cheguei até a empostar a voz e elaborar o seguinte discurso: “Antes, tínhamos Anísio Teixeira; hoje estamos todos enfiados na barbárie”.

Mas a verdade, minha comadre, é que o intelectual de Caetité, um homem reto, é exceção baiana. A culpa por nossas cotidianas e sensuais tragédias não é a falta de educação, mas sim um problema de, digamos assim, abundância topográfica. Afinal, é impossível manter-se equilibrado com tantas ladeiras. E, para descer e subir os incontáveis morros, rebolar é preciso. Por isso, as moças e os moços de Soterópolis vivem mexendo mais do que Ferry -Boat em dia de mar agitado. A questão, como se vê, não é somente pedagógica.

Aliás, não é à toa que o maior brega da cidade, a gloriosa e decadente Montanha, está encravado exatamente numa área íngreme. Geografia é destino. A propósito, de acordo com dados da Companhia de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Salvador (Conder), no ano da graça de 2000, existiam apenas 125 ladeiras na cidade, o que é uma rematada mentira, quase tão deslavada quanto àquela que diz que temos somente 365 igrejas.

É por tudo isso, amigos, que quando a educação baiana começa a descer ladeira abaixo ao som do pagodão não tem reza de carola que segure.

A vilanização do bigode

Aprendi com o menino Descartes que, antes de tudo, é preciso método. Por isso, desde priscas eras, guio-me pelo seguinte, inquebrantável e repetido hábito: abstenção total dos grandes debates que inquietam a nação.

Sim, minha comadre, em nome da preservação do meu resto de sanidade, sempre fujo às importantes discussões no início de semana – especialmente quando estou na fila do banco, desesperado, procurando uma fórmula para amenizar as dores de minha maltratada conta bancária.

Assim, quando o sujeito se aproxima com indagações do tipo “Rapaz, você viu ontem no Fantástico o caso do médico que engoliu um canguru no interior da Paraíba e não pára de pular faz uma semana?” -  minha resposta é uma só: Nécaras. E dou o assunto por encerrado.

Ou melhor, dava. Nesta última segunda-feira foi impossível. Afinal, não poderia silenciar diante  do seguinte questionamento que me foi feito por uma moça de alpercatas da Barroquinha e olhar desleixado.  (Não pelo questionamento em si – se é que vocês me entendem).

“O que você achou da história do desaparecimento de Belchior?”.

Mais distraído do que a zaga do Vitória, pensei em agradar a menina fazendo um tratado sobre a peregrinação do Rei Mago em visita ao menino Jesus. Porém, me lembrei que, apesar da insanidade das propagandas, ainda estamos em agosto. Portanto, não era daquele Belchior que a garota estava falando. Porém, sua alpercata e olhar desleixado não podiam ficar sem resposta. Ou melhor, sem pergunta. Então, larguei: “Qual Belchior?”.

Possuída pelo espanto de uma fã que não compreende tamanha desfaçatez, ela abandonou o ar raribô, rabirô, ra riiii bôô – e falou secamente: “O cantor, ora”.

Como perco a mulher, mas não perco a piada, perguntei: “O que aconteceu com o cearense? Morreu de novo?”.   

Sim, amigos, porque convenhamos. Esta história de falar que o cara sumiu faz apenas dois anos é de uma desinformação sem limites. Toda a Bahia e uma Banda de Sergipe sabem que Belchior desapareceu para a canção popular desde o Ano Internacional da Criança, 1979. De lá pra cá, sobrou somente o bigode. Aliás, acho que este segundo sumiço da santa está relacionado exatamente a este acessório capilar.
É a única explicação plausível que me ocorre. Senão, vejamos.

Apesar de ter sido abandonado pelo talento há coisa de três décadas, Belchior resistiu honrosamente ao anonimato. Mesmo com as severas admoestações dos críticos (esta raça de gente ruim), ele prosseguiu com suas canções e pensamentos imperfeitos sem dar ouvidos à maldade alheia. Porém, quando seu conterrâneo José Sarney (pra mim, nordestino é tudo igual) iniciou o processo de desmoralização do bigode, Belchior não suportou. Afinal, a ostentação do referido adorno facial era a única glória que lhe restava. Ao ver que até o bigode havia sido vilanizado, ele sucumbiu. E, tragédias das tragédias, saiu da MPB para ocupar um lugar no noticiário do Fantástico.

Toca, Rauuul

Passados exatos 20 anos da primeira morte do menino Raul, até hoje ainda não consegui responder a seguinte indagação que inquieta a Bahia e uma banda de Sergipe: quem fez mais mal ao referido, seus inimigos ou seus ensandecidos fãs?

Putaquepariu futebol, roque e regatas!

Os adeptos do magricela, entre os quais humildemente me incluo, são simplesmente insuportáveis. Já seus adversários…conseguem ser ainda piores. Tentaram transformar um sujeito todo torto em um maluquinho beleza.

Vá matar o DEMÔNHO!

A propósito, repetirei aqui algo já dito por meu amigo Chico Castro Jr. – indivíduo paranóico por formação e convicção.

Certa feita, ele fez o seguinte diagnóstico sobre o seqüestro de Raulzito pelo, com o perdão da má palavra a esta hora, status quo baiano: “França, eles ‘homenagearam’ Raul com nome de viaduto que é pra todo mundo passar por cima do roqueiro“.

 

Pois é, Chicovsky, ao contrário daquele batido poema de Quintana, eles até passaram, mas Raul não virou passarinho.

 

Mais sobre o carimbador maluco nesta malamanhada trilogia abaixo. Ouçam.  

 

Capítulo 1

 

Parágrafo 13

 

Versículo 666

Cartola chama jornalista pra briga

Há seculum seculorum, prometi que não mais mancharia o nome desta honrada emissora tratando aqui das coisas relativas àquela equipe que habita o subsolo dos porões do futebol brasileiro. Sim, falo daquela injúria mesmo que vocês estão pensando. Porém, como já afirmei nesta impoluta tribuna, convicção é bicho traiçoeiro, basta um descuido – e ela descamba a ladeira.

Pois não é que o Satanás atentou e novamente reformulei minhas concepções. A bem da verdade, nem foi o Cão. Alterei mais uma vez minhas idéias por causa de um texto de Samuel Celestino.
Seguinte é este. Ou melhor, foi este.

No último dia 09 de agosto, o eterno presidente da Associação Bahiana de Imprensa fez o que se espera de um jornalista, principalmente de um jornalista baiano: publicou um texto raivoso e cheio de erros de informação descendo a madeira, sem dó nem piedade, no herdeiro do espólio do Bahia. No referido libelo, havia equívocos de diversas espécies. Até o nome do atual presidente do ex-quadrão estava grafado incorretamente. Mas, como diria o filósofo, Domingos de Souza: “até aí, tudo bem”. Afinal, Samuel estava apenas cumprindo a função social do repórter, isto é, desinformar.

Acontece que Marcelinho (nunca confie em homem que usa nome no diminutivo) respondeu com um golpe abaixo da cintura. E, logo no título, chamou o colunista de A Tarde para briga, insinuando que o mesmo queima o velho às de loscopita.  Ouçam em caixa alta:

NOTA OFICIAL À SAMUEL CELESTINO.

É óbvio que Marcelinho, apesar de usar o nome no diminutivo, é um homem culto. Afinal, quem puxa aos seus não degenera. Portanto, ele sabe muito bem que não se usa crase antes de nomes masculinos.

Então…

Mas, chega. Já gastei latim demais com defunto ruim. Eles que são tricolores que se entendam. Agora, vou lhe dizer uma coisa, Samuel: se alguém colocasse uma crase antes de meu nome eu não deixaria barato – até porque Ferreira Gullar já ensinou que a crase não foi feita para humilhar ninguém. Assim, em verdade lhe digo. Sei que você não me pediu conselho, mas mesmo assim lhe oriento: Reaja, Celestino. E mande o presidente do Bahia meter o acento grave no seu (lá dele) monossilabo.